—Você nem diz nem conhece a verdade—exclamou o padre Francisco.

E acrescentou com concentrado odio:

—Você é um miseravel que recebe dinheiro dessas malditas sociedades inglezas para perder a Hespanha, para subjugal-a...

—Sr. padre Francisco—disse Julião num tom veemente—O senhor é um caluniador. Certamente que a si é que eu devo o prégar o Evangelho; pois saibam todos que, por causa desse senhor, perdi a minha loja e a minha posição. Tão caritativo, fez quanto pôde para a minha miseria e para a miseria da minha familia.

—Fóra, fóra o padre!—gritaram de novo as pessoas presentes.

—Silencio!—tornou a exclamar Julião—O sr. padre Francisco é um dos padres de mais talento da freguezia; tem estudos, e diz que estou no erro; eu, pelo contrario, não sou mais do que um pobre artista sem estudos, e, mais ainda, com um futuro bem triste. Pois apezar disso, eu desafio-o a discutir comigo na vossa presença.

—Bem, bem—exclamaram os circunstantes.

—Senhores—disse o padre Francisco, um tanto embaraçado,—eu não posso discutir com este homem sem licença dos meus superiores; portanto não lhe aceito o repto, antes o desprézo.

—Parece-me—disse Julião—que isso é uma evasiva; o senhor, se é, como diz, ministro do Evangelho, não pode deixar de combater o erro onde quer que se encontre; a sentinela que vê como o inimigo se aproxima da brecha que ela guarda não espera que os seus chefes lhe mandem fazer fogo: assim o senhor deve colocar-se em frente do erro sem aguardar licença de ninguem.