O baile prolongou-se até á uma hora da madrugada; não havia cabeça que estivesse em si. O sr. João, numa linguagem ininteligivel, disse:

—Senhores... ámanhã... disse... ámanhã... será dia. Proponho que vamos á horta, ao campo... como ha que madrugar... é preciso dormir... com que cada mocho a seu souto... tenho dito.

—Bem, bem!—exclamaram todos com alegria.

—Ordem, companheiros!—gritou com voz um pouco rouca o confeiteiro;—antes de nos separarmos venha mais um gole e dancemos o galope infernal.

—Sim, sim, disseram alguns, vamos ao galope infernal.

Encheram-se os copos e esvasiaram-se, e as guitarras tocaram desafinadamente. Alguns pares começaram a bailar... Bailar? Melhor diriamos que aquilo não era baile, mas sim dança de furias; aquela massa de gente empurrava-se e pisava-se, indo dum lado para o outro. Por fim sucedeu o que era de esperar. O confeiteiro e a sua companheira cairam no chão e aos outros aconteceu o mesmo, por estarem com a cabeça toldada pelo vinho.

Que scena! homens e mulheres, em revolta confusão, rolando pelo chão; o calor sufocava! as vozes, no meio das quaes se ouviam alguns ais, ensurdeciam, e tudo isto diante do santo da sua devoção! Por fim foram levantando-se conforme poderam, os devotos do santo, á excepção duma joven que ficou estendida no chão, por efeito duma pancada violentissima que havia recebido. Então é que foram os lamentos e os ais; uns resavam ao santo, outros abriam roda, e abanavam com os lenços, e finalmente Antonia correu ao seu quarto por um frasquinho de essencia que, aplicado ao nariz da pobre menina, fêl-a voltar a si.

Finalmente, depois do susto que tiveram, o que é muito natural, os convidados sairam para a rua, ficando só a familia da casa. Antonia entrou no seu quarto chorando, porque na ocasião do baile tinha caido, e na queda tinha partido um dos brincos, perdendo tres diamantes que tinha mandado engastar nele.

Que dirão seus paes? Encontrará Santo Antonio os diamantes?