Um dos homens, que estava tocando a guitarra, levantou-se e, dirigindo-se ao recemchegado, sem saber quem era, disse-lhe:
—Quem é você para falar assim? Creia que já me aborrece tanto palavriado, e, se me chega a mostarda ao nariz, nem você nem nenhum dos protestantes que estão lá em baixo fica com um cabelo na cabeça.
—Parece-me que o vinho faz com que fale desse modo, aliás...
—Se não se cala—interrompeu o homem,—arremesso-lhe daqui mesmo onde estou com... Já lhe disse, quem é você? É porventura algum protestante?
—Sou quem agora mesmo o leva para a casa de detenção; sou o regedor da freguezia.
E ao ouvir isto todos ficaram como estatuas.
—Senhor regedor—disse, passados alguns momentos, a dona da casa, com uma entoação tão servil agora como antes tinha sido insultante—senhor regedor; eu lhe confessarei por que razão estamos fazendo o que vê, se nenhum mal nos fizer.
—O escandalo sempre é escandalo, e o meu dever é castigal-o; porém queira dizer.
—O padre Francisco, que vive no andar superior, dá-nos algumas pesetas para fazermos barulho e interrompermos as reuniões protestantes que se celebram lá em baixo, e nós sem saber... pois... o faziamos.
—Bom; vamos ter com o padre; porém venha a senhora comigo.