O joven aproximou-se do altar, sem se inclinar nem fazer o menor sinal de reverencia.

—Veja—prosseguiu o padre Francisco—o meu pequeno tesouro. Essa Virgem do Pilar, que é de prata, tem um merito artistico extraordinario. Aquele crucifixo de marfim é tambem muito bom, e custou-me, quando estive em Roma, trinta e cinco libras. Vê aquele S. Pedro? Foi presente da minha madrinha de baptismo, que mo deu quando cantei missa, e então meu padrinho, para que eu tivesse o par completo, mandou-me fazer aquele S. Paulo. São ambos de oiro. Meu tio mandou-me do Brazil, quando era mordomo do arcebispo daquele paiz, esta reliquia: é um pedacinho dum dos degraus da casa de Anás. Porém ainda não lhe mostrei o melhor, que é aquele Cristo.

O padre Francisco apontava para uma téla, onde estava pintado um Nazareno com a cruz ás costas: representava-O de meio corpo e quasi do tamanho natural.

É o Cristo das Completas, imagem muito milagrosa. Saiba que já falou.

—Já falou, esse pedaço de linho!—exclamou Mateus.

—Sim, senhor; queira ouvir a historia. Essa imagem achava-se exposta á veneração dos fieis num convento; nesse convento havia uma freira tão enamorada dela que cada vez que se ajoelhava para adorar passava ali horas esquecidas. Sucedia com isto que, ainda que o sino tocasse para as rezas, aquela esposa do Senhor não o ouvia e faltava sempre a elas.

«Uma tarde achava-se a freira em adoração á imagem e tocou o sino para as Completas, porém ela não ouviu o toque, e então a divina imagem, abrindo os seus divinos labios, avisou a sua amiga, dizendo-lhe: Olha que tocam para Completas.

—Pois sr. padre Francisco, não posso acreditar no que diz. Falar um pedaço de pano pintado!

—Como? Acaso não falou a burra de Balaão?

—Sim, senhor, porém aquele caso foi muito diferente, pois...