Segundo o costume, recitou as primeiras orações, e, ao chegar ao confiteo deo, etc; quiz concentrar-se comsigo para fazer uma confissão digna, porém naquele momento assaltou-o este pensamento: Primeiramente pensou que nem S. Paulo nem S. Pedro deviam ter celebrado missa recitando aquela oração, pois, de contrario, eles mesmos se pediriam perdão dos seus proprios pecados; segundo, se, como é de supôr, esta oração não se dizia no tempo dos apostolos, claro é que era um remendo deitado depois, e em tal caso a missa não era como a celebraram os apostolos.
Imediatamente o assaltou outro pensamento:
—Que nescio sou em pensar assim! Claro é que nem S. Pedro nem nenhum apostolo disse esta oração; porém nem por isso a missa está alterada, visto que desde o introito até ao Evangelho não são senão orações preliminares, que não formam parte da missa. Deixemos, pois, de pensar nestas coisas.
Continuou na celebração. Por fim chegou ao Evangelho; o menino do côro que ajudava á missa mudou o missal da esquerda para a direita do altar, e o sacerdote principiou a ler o Evangelho, que naquele dia era o cap. 4 de S. João, ou a passagem de Jesus com a samaritana.
O sacerdote lia rapidamente; porém ao chegar aos versiculos 21, 22 e 23, uma luz penetrou no seu espirito, e por um momento parou na leitura, até que com muita atenção e pausa tornou a ler:
«Vós adoratis quod nescitis...»
—Sim—pensou o padre Francisco—«Vós adoraes o que não sabeis». Isso sucede á maioria dos catolicos. Que sabe ácerca de Deus essa gente que se ajoelha atraz de mim? Como pode estar orando com recolhimento, se está olhando para mim com toda a atenção, para se ajoelhar quando eu me ajoelho, e levantar-se quando eu me levanto?
«Ced venit hora—prosseguiu lendo—et nunc est, quando veri adoratores adorabund Patrem in spiritu et veritate. Nam et Pater tales quoe rit, qui adorant eum, in spiritu et veritate oportet adorare.»
—Oh—disse o padre—eis aqui uma doutrina na qual nunca havia posto a atenção. «Os verdadeiros adoradores adorarão o Pae em espirito e verdade, porque Ele é Espirito e verdade; além disso, porque tambem o Pae busca taes adoradores para que O adorem.» O Senhor, pois, deseja um culto espiritual, porém certamente que o culto que nós, os catolicos, Lhe rendemos tem muito pouco de espiritual, é antes externo e material. Jámais pensei nisto.
O sacerdote continuou a missa, e concluiu-a, saindo da egreja sem falar a ninguem.