Fazemos menção especial destes dois objectos, que não faltam em nenhuma egreja paroquial, não por sua antiguidade nem por sua beleza artistica, mas sim porque naquela cadeira e por detraz daquela mesa senta-se um sacerdote. Vejamos de que se ocupa ele.
Uma mulher entra na sacristia, dizendo que deseja mandar dizer uma missa em tal ou qual altar; mandam-na ter com o sacerdote que está sentado á mesa, o qual recebe o dinheiro e escreve num livro, respondendo depois: «Pode-se ir embora, que a missa cá se dirá...»
Depois chegam duas senhoras, com um recem-nascido. Veem mandar dizer uma missa de parida, como vulgarmente se chama. O clerigo recebe dinheiro e diz: «A primeira que agora se fôr dizer é a missa que deseja». Costuma suceder que alguma pessoa entra na sacristia pedindo o Viatico para algum enfermo, e então não falta sacerdote que não murmure:
—Não podem vir á noite? A esta hora tão impropria! Assim está em perigo o doente?
E deste modo, ainda que o sacerdote se revista com as vestes proprias, ainda que o sino dê o sinal do estilo, numa palavra, ainda que se vá desempenhar aquele oficio no mesmo instante, não se faz sem primeiramente se haver murmurado ácerca da hora, do frio, do calor, dos muitos degraus que ha para subir, se o enfermo é pobre e habita nas aguas-furtadas dum quinto andar. Em resumo, para aquele que vae com o dinheiro na mão tudo está muito bem; para o pobre, porém, é outra coisa; tudo se faz, mas sempre de má vontade.
Para terminar esta descrição, diremos que na sacristia, geralmente, reina o melhor humor. Os sacristães, rodeados por seis ou oito meninos do côro que olham com inveja para a sotaina, e aspiram chegar a serem sacristães quando haja logar, ralham sobre a repartição mal feita dalguma propina, ou sobre o dever de ajudar ou não á missa. Porém que ha a estranhar em que os meninos do côro façam isto, quando os sacerdotes lhes dão tal exemplo?
Numa palavra, se os nossos leitores querem inteirar-se a fundo e conhecer as miserias da egreja romana, vão estudal-as no interior dalgumas sacristias paroquiaes, na certeza de que verão com surpreza e escandalo o que o autor destas linhas tem tido ocasião de ver.
Porém, voltando ao padre Francisco, achava-se sentado e absorto em suas meditações, quando um dos sacristães se aproximou dele para lhe dizer que era a hora de dizer missa.
O padre Francisco principiou a paramentar-se, recitando em latim, durante esse ato, as rezas do ceremonial.
Recordou-se então de que nenhum dos apostolos havia usado aquelas vestes, e, a seu pezar, olhava para elas agora com uma certa indiferença que lhe seria impossivel explicar. Por fim tomou o calix e saiu para a egreja. Ao subir os degraus do altar-mór, sentia esvaecimentos de cabeça; porém, apezar disso, continuou.