O sacerdote, depois de se ter persignado tres vezes, levantou-se, e, fechando o armario, dirigiu-se ao seu quarto; uma vez ali, poz a capa e, tomando o gorro, saiu.
Emquanto ia a caminho da egreja, novos pensamentos se lhe cruzaram pelo espirito, inquietando-o muitissimo.
Via em sua imaginação a Virgem do Pilar, deante da qual se tinha ajoelhado, tão resplandecente, tão formosa... então, por uma transformação, viu-a negra, sem aquela expressão de bondade no rosto que sempre tinha, tal qual como quando estava nas mãos do artista; depois, viu-a no cadinho derretida, e por ultimo acabou por perguntar a si mesmo: «Ter-me-ha ouvido esse pedaço de prata?»
Como nesta luta estava interessada a cabeça e o coração, tornava-se ainda mais amarga, porque o que aquela aprovava este rejeitava, e vice-versa; assim que, depois da pergunta anterior, veiu-lhe ao espirito o seguinte pensamento: «Porém, se eu me prostrei deante daquela imagem, não foi para a adorar a ela, mas sim aquilo que representa».
Por fim chegou á egreja, e, depois de tomar uma pouca d’agua benta, com que fez uma cruz na testa e na corôa, dirigiu-se para a sacristia.
A sacristia desta egreja é digna de ser observada.
Quasi todas, com pequenas excepções, são eguaes. Um compartimento maior ou menor, com um armario a um dos lados, que serve ao mesmo tempo de meza, o qual é de madeira e duma construção pesada. Nos seus gavetões guardam-se os paramentos, a cera, etc.
Na parede lateral do lado oposto, ha uma especie de banco corrido, que oculta um caixão a todo o comprimento, onde os sacerdotes guardam as capas, quando se preparam para celebrar a missa.
Quadros misticos, um crucifixo, uma pequena taça de pedra com agua, onde o sacerdote lava as mãos antes e depois da missa, compõem todo o adorno daquele logar.
Devemos fazer especial menção duma antiquissima mesa, por detraz da qual ha uma cadeira de couro, não menos antiga.