«Ofereceu-Se a Si mesmo, não por pecados proprios, como impiamente disse Socino, pois que o Apostolo lhe chama Santo, Inocente, Imaculado, senão que satisfez ao Pae por nós. O ter-Se oferecido uma vez não exclue os sacrificios da Egreja Cristã, porque o mesmo que se efectuou cruento sobre a cruz está expresso no incruento dos nossos altares». (Conc. Trid. Sessão 22, cap. 11).

O padre Francisco deu um murro em cima da mesa e exclamou:

—Claro que a missa é uma representação do sacrificio de Cristo, porém esta nota do Concilio de Trento está abertamente em oposição com aquilo que nós ensinamos, isto é, que na missa sacrificamos a Cristo real e verdadeiramente, pois que temos em nossas mãos um Cristo real, material e verdadeiro. Não posso compreender isto, porém creio que o sacrificio de Cristo não se repete mais... Oh! que está dando entrada no meu coração a heresia!... Nada, nada... porém, sim, a olhos vistos se pode observar que existe uma contradição entre os nossos ensinos e as nossas praticas...

O sacerdote, cançado por uma luta tão prolongada, decidiu ir refugiar-se no leito, esperando encontrar repouso no sono.

Fez as suas orações do costume, porém podemos afirmar que nessa noite os seus labios mais do que o seu espirito tomaram parte nos exercicios piedosos, pois que o espirito, esse achava-se bastante perturbado.

Todavia, contra as suas esperanças, passou aquela noite preza de pezadelos que o não deixaram dormir.

Impossivel nos seria descrever os sinaes de terror que se desenhavam no rosto do padre Francisco ao levantar-se do leito, ao romper do dia. Tremulo e agitado, principiou a vestir-se com uma precipitação desusada, e exclamou:

—Oh Santissima Virgem do Pilar! Tu és boa, tu és pura, tu não quererás que eu, que te amo até ao ponto de ter-te aqui encerrada nesta arca santa, para que nem o proprio ar te dê; tu, oh flôr de Nazaré, oh estrela da manhã, não quererás que eu me perca... Não sou eu sacerdote? Não te amo mais do que a minha vida?... Não daria até o meu proprio sangue por ti? Porque, pois, não me ouves?... Acaso já me não amas a mim? Em que te ofendi? Oh Virgem Santissima, não te mostres indiferente quando eu te oro; pelo contrario, concede-me o que te peço!... Agora vou dizer missa; a ti a ofereço, excelsa Senhora; prepara-me tu, e perdoa-me todos os meus pecados, que na tua presença confesso.

E o sacerdote, cruzando as mãos sobre o peito, inclinou a cabeça e disse em voz baixa:

—Eu, pecador, me confesso a Deus[4] e á bemaventurada sempre Virgem Maria, e ao bemaventurado S. Miguel Arcanjo, e ao bemaventurado S. João Baptista, e aos santos Apostolos S. Pedro e S. Paulo e a todos os Santos... que pequei gravemente por pensamentos, palavras e obras, por minha culpa... por minha culpa... por minha gravissima culpa. Portanto, rogo á bemaventurada Virgem, ao bemaventurado S. Miguel Arcanjo, ao bemaventurado S. João-Baptista, e aos santos Apostolos S. Pedro e S. Paulo, e a todos os Santos... que rogueis por mim a Deus, Nosso Senhor... Amen... Jesus, Maria, José, perdoae-me o grave pecado de ler o que não devia ter lido, e falado com quem não devia falar, que me fez sonhar aquilo que eu não queria. Senhor, Maria, Santos que habitaes as mansões celestes. Sumo Pontifice, Arcebispo da diocese, perdoae-me... Amen.