—Hontem á noite, ás onze e meia, recebi a sua carta, pois que estive numa povoação prégando, e, como lhe disse, cheguei hontem a essa hora; por isso apressei-me hoje em vir, e aqui me tem ás suas ordens.

—Meu amigo, é impossivel dizer-lhe as angustias que sofro. O meu espirito luta, e mesmo de noite não posso descançar. No dia em que lhe escrevi, não pude dizer a missa com a tranquilidade de espirito necessaria: á noite, antes de me deitar, li a Biblia, e fui acometido de horriveis pesadelos.

E o padre Francisco contou ao joven os sonhos que teve durante a noite, e tudo o mais que lhe sucedeu na missa. Depois continuou:

—Que significa tudo isto? Porque sofre tanto a minha alma? Eu lhe peço, sr. Mateus, que me diga franca e lealmente se o que crê o crê do coração; se assim é, qual é a base da sua fé, porque difere das crenças da Egreja, porque tem em pouca conta a missa... numa palavra, desejo que me diga sinceramente se obedece á sua consciencia, ou se, tanto o senhor como os da sua seita, estão filiados para, sob a capa do Evangelho, destruir a Egreja catolica, e substituil-a pelo seu protestantismo. Fale-me com toda a franqueza, na certeza de que ninguem saberá esta nossa conversa, e em troca terá restituido a tranquilidade e o repouso á minha alma. Finalmente, sr. Mateus, ou me demonstra clara e terminantemente as erradas crenças que eu confesso, ou diz-me que os protestantes obedecem a planos duvidosos, pois de contrario porque protestam?

O padre Francisco calou-se; o seu olhar estava fito no semblante do evangelista, como se quizesse magnetisal-o. Passados alguns segundos, disse Mateus:

—Senhor padre Francisco, tenho-o estado escutando com toda a seriedade de animo, e compreendi que a sua alma necessitava dum tal desafogo. Agora vou responder á primeira das suas perguntas, pois que, para melhor inteligencia, vou dividil-as em dois grupos. Deseja saber qual é o caracter do protestantismo. Bem; aqui, em nome do Senhor, a quem desde que sou convertido jámais invoco em vão, lhe asseguro que os protestantes, ou, antes, os cristãos evangelicos, não obedecem, em materias religiosas, a planos duvidosos; que por nenhuma causa desejam que o mundo se perca, que não odeiam os ministros, nem os fieis da Egreja romana, antes pelo contrario teem compaixão deles, e, por ultimo, que os protestantes desejam que o Evangelho, em toda a sua pureza, se estabeleça em toda a superficie da terra, e que, conforme as palavras do Senhor, o mundo seja cheio do conhecimento do Seu nome. Agora, a segunda parte da minha resposta é que a unica regra de fé dos protestantes é a palavra de Deus, conforme se acha contida nos livros do Antigo e Novo Testamentos; que acatamos tudo quanto a Biblia diz; que nos submetemos aos seus ensinos e rejeitamos pela base tudo aquilo que está em contradição com as Escrituras ou que não achamos nelas estabelecido. Isto posto, e antes de passarmos a outro ponto, devo perguntar-lhe se depois disto, e do mais sobre o que vamos falar, o Senhor, pelos meus labios, lhe pozer á vista os erros dos romanistas, promete não resistir por mais tempo ao Espirito, antes pelo contrario obrar conforme ele lhe dite?

—Sim, senhor—respondeu o sacerdote.

—Pois bem, observe, á face do Evangelho, os erros da Egreja de que é ministro. Mas para proceder com metodo, tratemos da questão pessoalmente, quero dizer, como se V. fosse o fundador do romanismo e eu do protestantismo.

—Bem, muito bem—disse o padre Francisco;—principiemos pela missa. Eu digo, e a Egreja o confirma, que Jesus foi quem instituiu a missa, quando instituiu o sacramento da Eucaristia.

—E eu—disse Mateus—digo que, antes de mais nada, precisamos de definir a missa. Pergunto, pois: o que é a missa?