—A missa—respondeu o sacerdote—é um sacrificio, no qual o sacerdote oferece a Deus, em sacrificio incruento, a Jesus Cristo, Filho de Deus. Este sacrificio pode aplicar-se em beneficio dos defuntos cujas almas se acham no purgatorio, por algumas faltas que cometeram neste mundo.

—Perfeitamente—replicou o evangelista.—É assim como o entende a Egreja romana; no emtanto, eu digo-lhe que não ouvi jámais tantos erros em tão poucas palavras. Em primeiro logar, como procederam os apostolos em relação ao partir do pão? No cap. 2 dos Atos, ver. 42 a 46, leio que eles, com as pessoas convertidas, participavam da comunhão entre si, celebrando o partir do pão nas casas, e todos com alegria glorificavam a Deus.

«Agora, pois, sabemos que os apostolos não se serviram desta especie de obreia, que a egreja romana emprega na comunhão, senão que comiam o pão como Jesus lhes ordenou; tambem bebiam vinho, não sómente os apostolos, como todos quantos participavam da comunhão, coisa contraria ao que faz o sacerdote romano, que priva do calix o povo, o que me dá direito de lhe perguntar: Quem instituiu o sacramento, o sacerdote ou Cristo?

«O Senhor, falando do calix, diz: «bebei todos dele». Quem é V. para opôr-se á vontade do Fundador, que quiz que todos se aproveitassem do Seu sangue? Em segundo logar, a missa não foi instituida por Cristo, nem por Seus apostolos, porque um papa, Damaso, bispo de Roma, no ano de 368, instituiu o confiteor; Gelasio, no ano de 492, compoz os Hinos, Coletas, Responsorios, Graduaes, Prefacios, e tambem acrescentou o Vere dignum et justum est. Simaco, no ano de 512, decretou que nos domingos e festas principaes dos martires se cantasse a Gloria in excelsis Deo. Pelagio, pelo ano de 556, acrescentou a comemoração dos defuntos. Gregorio I, pelo ano de 600, fez as Antifonas e o Introito, ordenando que a kirie-eleyson se cantasse nove vezes, e do mesmo modo o Aleluia. Além disso, tambem ordenou este papa que o Pater Noster se cantasse em alta voz, e sobre a hostia consagrada; tambem acrescentou ao canon: Dies que nostres in tua pace disponas.

O padre Francisco estava verdadeiramente assombrado, o que deixava ver claramente pelo gestos com que acompanhava as palavras de Mateus, que continuou assim:

—Sergio, que morreu em 701, ordenou que o Agnus Dei se cantasse tres vezes antes de partir a hostia. Gregorio III acrescentou á secreta missa: Quorum solemnitas hodie in conspectu tuae magestates celebratur, domine deus noster, in toto orbe terrarum. Nicolau I acrescentou as sequencias. Não me negará V. que Sixto I acrescentou o Sanctus, Sanctus Dominus Deus Sabaoth. Inocencio I, pelo ano de 405, acrescentou o osculo de paz. Leão I inventou o Orate, frates, o Deo gratis, e acrescentou ao canon Senatum sacrificium, immaculatam hostiam, e o Hanc igitur oblationem. E, depois de tudo isto, não vê V., meu caro amigo, que Cristo não instituiu a missa, mas sim que esta foi obra em que muitos colaboraram?

O padre continuou silencioso. Mateus prosseguiu:

—Existe outra prova maior do que todas, que demonstra claramente a extraordinaria mentira de que Cristo instituiu a missa. O grande Te igitur clementissime Pater é uma parte da missa, na qual se faz menção do papa, do bispo e do rei, o que é uma prova irrecusavel de que nem instituiu a missa, nem tão pouco a disse, pois que no Seu tempo ainda não havia papas nem bispos. No Communicates faz-se menção da Virgem e dos muitos santos que não existiram senão muitos anos depois dos apostolos, como S. Cipriano, S. Lourenço, S. Crisostomo, S. Cosme, Damião e outros. Ora isto prova a verdade da minha asserção. Agora convem observar a subtileza romana. Não põem no canon a S. Pedro, porque, se o pozessem, poderia dizer-se que aquele apostolo tinha procurado a nossa propria gloria. Com isto convenço o mais pertinaz ou cego de que nem Cristo nem nenhum dos apostolos disseram missa, nem conheceram o que isso era.

O sacerdote deu um suspiro e disse: