«Declaro que adiro ao Evangelho em toda a sua pureza; que o prohibir aos homens a leitura da Palavra de Deus é uma pratica que tem por fim levar os homens a que não vejam o erro em que vivem e o abandonem, com menoscabo da autoridade de Deus, que ordena em muitas passagens da sua Palavra que esta seja lida, sabida e estudada por todos os homens. Roma, porém, prohibe ao povo a leitura das Escrituras, e manhosamente procede do mesmo modo para com os sacerdotes, para que tanto uns como outros não vejam as adulterações e corruções que essa egreja tem feito, alterando umas coisas e introduzindo outras.
«Confesso tambem que a Egreja de Roma comete uma grande maldade, alterando o mais respeitavel de todos os sacramentos; falo da sagrada Eucaristia. A egreja romana, querendo corrigir o que Jesus fez, prohibe o calix aos fieis no ato da comunhão, ao passo que o Senhor diz: «Bebei todos dele» referindo-se, não sómente aos discipulos, mas a quantos depois deles haviam de comemorar «a morte do Senhor até que venha.»
«Finalmente, protesto contra tudo o que Roma faz, por duas razões: ou porque tudo está viciado, ou porque está em contradição manifesta com as práticas apostolicas e com a vontade de Deus.
«Confesso que, emquanto fui sacerdote (pois desde hoje deixo de o ser), procedi impelido pelo zelo e fanatismo, de que estava possuido, e porque cria fazer um serviço a Deus! Quanto me enganei! Deus me perdôe!
«Confesso que procurei fazer muito mal a este amigo—e apontava para Julião—em seus interesses; confesso que, a solicitações minhas, o capelão duma familia nobre influiu sobre certa dama, de quem era confessor, e Julião perdeu, não sómente o trabalho de certa casa, como tambem as economias que havia empregado em materiaes para aquele trabalho; d’ahi principiou a decadencia da casa de Julião, e por isso teve ele que fechar a sua loja, e aqui cometi outro pecado maior. Quando se achava na miseria, fui oferecer-lhe recursos em troca da sua consciencia. Confesso que por minha parte empreguei todos os esforços para impedir a celebração dos cultos aqui nesta casa, valendo-me de quantos meios bons ou maus estavam ao meu alcance; confesso que chamei este joven—disse ele, apontando para Mateus—com má intenção, e confesso, por fim, que fui tão grande pecador que sómente pela maravilhosa misericordia de Deus estou convencido de que Ele me perdoará, pois que lho peço em nome de Jesus Cristo, e vós todos a quem ofendi me perdoareis egualmente, porque sois cristãos e porque vol-o peço pelas entranhas misericordiosas de Cristo.»
Havia nas palavras do padre Francisco tal convicção e tal acento de verdade que, ao ouvil-as, algumas vozes se ouviram, dizendo:
—Sim, sim, está perdoado.
E a todas estas vozes sobressaiu uma, que disse:
—Bem, bem, senhor padre Francisco, V. é um bom sacerdote, liberal, honrado e honesto; perdôo-lhe tudo e estimo-o.
Foi mestre João quem disse isto.