—«Sim, amigos meus, é o padre Francisco, que, tendo ouvido na palavra de Deus o convite a «todos os sedentos para virem ás aguas», cheio de sêde acode pressuroso a esse manancial de aguas divinas; o padre Francisco, que ouviu ainda a tempo o aviso de Deus: o padre Francisco, emfim, que, impelido hoje por uma força desconhecida, por uma voz que lhe grita: «para deante» vem para fazer aqui, e depois em outra parte, uma confissão dos seus erros, e uma profissão de fé. Todos sabeis quem eu sou, todos me conheceis: e por isso mesmo a vós outros, antes do que a ninguem, venho dizer-vos que creio no milagre portentoso do Santo, porque dos meus olhos tambem cairam as escamas do erro.
«Eu era cego, guia de cegos; e ai! sem o pensar, a quantos precipitei eu no barranco!
«Nescio de mim que, tendo o Evangelho em minhas mãos, jámais estudei as verdades nele contidas, fiando-me sómente na interpretação rotineira que me haviam ensinado nas cadeiras de teologia que cursei.
«Porém, graças a Deus, vim ao reconhecimento da verdade que ha em Cristo Jesus, e hoje abandono o erro que está na Egreja de Roma. De hoje em deante serei cristão de Cristo, porém não cristão do Papa; serei prégador do Evangelho, porém não serei sacerdote; perderei com isso a minha reputação, o meu credito, tudo; porém não me importa; ganhei a Cristo; é quanto basta; e a todos quantos julguem ver no meu procedimento um fim interesseiro, emprazo-os para deante do Tribunal Supremo, naquele dia em que «todo o oculto será manifesto.»
«Sim, separo-me dos erros de Roma, porque aprendi no Evangelho qual é o caminho onde se serve a Deus, e o meio que existe para entrar no céu. Se me separo da Egreja de Roma, é porque esta egreja dá ao homem um sem numero de intercessores, ao passo que a Palavra de Deus me ensina «que ha um Deus e um só mediador entre Deus e os homens, Jesus Cristo homem.»
«Separo-me da Egreja de Roma, porque ela diz que o homem se salva por suas boas obras, fazendo deste modo que ele tome parte em sua salvação, e isto em menoscabo de Cristo, o unico Salvador, porque está escrito ácerca dele: «Em nenhum outro ha salvação, porque do céu abaixo nenhum outro nome foi dado aos homens pelo qual possamos ser salvos», e em menoscabo da Palavra, que diz:
«Pela graça sois salvos pela fé, e isto não de vós, pois é dom de Deus.» Separo-me da Egreja Romana, porque nela tudo é material e nada espiritual, fazendo um vil negocio das coisas mais santas; pois que do mesmo modo vende tanto os sacramentos, como as bulas, como as missas, como as indulgencias, etc., etc., sem ter em conta que foi dito por Jesus: «De graça recebestes, de graça dae.»
«Não posso por mais tempo permanecer no seio da Egreja Romana, que conta entre os seus dogmas o da Transubstanciação. Meus amigos, estudei essa questão ha poucos dias, e estou intimamente convencido de que Jesus e Seus apostolos nada disseram ácerca da missa, nem tão pouco a instituiram, nem, e ainda muito menos, a disseram.
«Separo-me da Egreja Romana, porque vi que ela alterou as praticas estabelecidas por Jesus e os apostolos, aumentando, tirando ou modificando sacramentos, como vou passar a expôr: O baptismo que a egreja ministra não é o que ministraram nem João, nem Paulo, nem nenhum dos apostolos. Em primeiro logar, faz o seguinte: exorcismo do sal, que o sacerdote põe nos labios da creança; o exorcismo da creança, soprando-lhe sobre o rosto, por tres vezes; outro exorcismo de sal; o presbitero põe saliva no nariz e nos ouvidos do recem-nascido, e tambem o unge nos hombros e no peito, com o oleo dos catecumenos. Como já disse, procurei com todo o cuidado na Palavra de Deus, para ver se ela autorizava taes praticas, e não achei sequer a menor sombra destas superstições. Filipe, Paulo e Pedro, e todos quantos administraram o baptismo, sómente exigiam a fé em Cristo, sem usarem exorcismos, nem velas, nem unturas. Baptizavam em qualquer ponto onde havia agua, tendo presente o mandamento de Cristo: «Ide e ensinae, baptizando em nome do Pae, do Filho e do Espirito Santo.» Depois do baptismo cobram-se 24 reales, o que indica que por esta quantia Roma introduz na familia cristã um ser qualquer.
«Protesto contra a confissão romana, e aceito a Biblia. Pela primeira, o homem se confessa ao homem, a quem não ofendeu, e esquece o verdadeiro ofendido; o penitente envergonha-se dum homem e não se envergonha de Deus. Eu fui confessor, e conheço os segredos do confessionario, pelo que vos digo que fujaes dele. O homem deve confessar-se a Deus.