São decorridos quinze dias desde o dia de Santo Antonio até hoje. Em casa do mestre João deve ter havido alguma coisa de extraordinario. Reina lá uma agitação fóra do costume; as mulheres andam apressadas dum para outro lado e o rosto de mais duma delas está humedecido pelo pranto. Que terá sucedido?
Consequencias duma vespera e dum dia de Santo Antonio.
Quer pela perda dos diamantes, quer pelo susto que recebeu com a queda do moço confeiteiro, Antonia veiu para casa doente.
No dia seguinte manifestou-se-lhe uma febre tão intensa que o medico declarou que não havia tempo a perder, pois via-a ameaçada duma congestão cerebral. Acrescentou que o caso não podia ser mais grave, e que, portanto, seria conveniente que se preparasse espiritualmente.
A pessoa que recebeu esta noticia foi a Dôres.
A mãe de Antonia estava como fóra de si; o pae chorava como uma creança, e para dizer tudo numa palavra—todo e qualquer teria pena daquela familia, tão triste agora como alegre ainda não havia muitos dias.
Dôres transmitiu a noticia a uma tia de Antonia, a qual disse que não a comunicava aos paes dela. Por fim, depois de muita hesitação, resolveram dizel-o a um sacerdote que vivia na mesma casa. Chamava-se Francisco, era ainda novo, um tanto instruido e, apezar de fanatico nas suas idéas religiosas, gozava de bastantes simpatias entre os seus freguezes.
As mulheres despediram-se do padre Francisco, e dez minutos depois um aprendiz de Julião entrou na oficina do carpinteiro, dizendo:
—Sr. João, o meu mestre pede-lhe que vá á loja dele, pois que precisa muito de falar-lhe.
O carpinteiro seguiu o rapaz, e, logo que avistou Julião, este disse-lhe: