CAPITULO I
A benção de Deus

Ao cair duma tarde de primavera, entramos no pateo duma casa situada na rua dos Embaixadores, em Madrid, onde nos chamaram, desde logo, a atenção duas janelas que, a julgar pelo ruido que delas sahia, uma devia ser a da oficina dum carpinteiro, e a outra a dum latoeiro.

Perto desta ultima janela, uma mulher já de edade, a julgar pelos seus cabelos brancos, estava sentada, lendo com grande interesse um livro, que tinha sobre os joelhos. Não podemos, pela posição em que ela está, ver o seu rosto, porém chama-nos a atenção a seriedade com que lê o livro e o desejo, que se lhe nota no rosto, de aproveitar na leitura os ultimos instantes que lhe restam da luz do dia.

Não sabemos que estranha simpatia nos arrasta para aquela mulher.

De repente, entra no pateo um rapaz, que diz:

—Senhora Josefa, o mestre chama-a.

Então ela levantou a cabeça, porém a surpreza, em que estavamos, não nos deixou ouvir a resposta. Aquele nome, aquelas feições e aquela voz traziam-nos á memoria uma pessoa a quem muito estimavamos, e uns acontecimentos que seguramente se nos tinham apagado da memoria.

Josefa atravessou o pateo e desapareceu.

—Quem é esta senhora?—perguntámos ao rapaz que neste momento recolhia a cadeira em que Josefa estava sentada.