—Não, esse está baptizado e é hespanhol; e ha pouco entrou em sua casa o padre Francisco; já vê que, se ele fosse protestante, não entraria ali aquele sacerdote.
—Pois é exactamente por isso que eu o sei. O padre Francisco soube que mestre Julião estava aconselhando o pae de Antonia a que não deixasse confessar a filha, e foi lá a casa para o trazer comsigo.
—É verdade! Isso é um misterio.
—Misterio não; ha quem diga...
Neste momento ouviu-se o tlim... tlim... tlim... tlim... da campainha anunciando a chegada do Viatico.
Imediatamente em casa da enferma e nas casas visinhas se estabeleceu uma grande confusão. Os moradores dos andares superiores desceram á porta da rua, uns trazendo luzes e outros com brazas nas pás, em que queimavam alfazema e incenso. O som da campainha ouvia-se cada vez mais distintamente, e os que vinham na frente com tochas acesas entraram no portal. Toda a gente se poz de joelhos. O sacerdote passou pelo meio, murmurando palavras que não se entendiam, e entrou pela porta que dava para as trazeiras da carpinteria. A porta de Julião, de que já falámos, e que ficava em frente da de mestre João, permaneceu fechada, causando este facto grande surpreza.
Emquanto o sacerdote estava lá dentro, alguns dos que tinham vindo acompanhar processionalmente o Viatico ficaram no portal, porque não cabiam no quarto da enferma, e, para não perderem o tempo, começaram a fumar e a conversar muito tranquilamente.
—Ouça lá, visinha—disse um individuo a uma mulher que estava com um candieiro na mão.—Quem mora nessa casa cuja porta está fechada e que não teve uma triste vela para alumiar o Senhor quando passou?
—Ali—respondeu a mulher, apontando para a porta que estava fechada—é a oficina de mestre Julião. Não são muito amigos destas coisas, nem ele nem sua familia; são...
—Protestantes?