—Muito—respondeu a mulher do carpinteiro,—pois se daquela ocasião tivesse morrido certamente que se salvava.

—Isso não é certo, pois que a confissão não salva ninguem, porém, apezar de tudo, diga-me: quantas coisas são necessarias para fazer uma boa confissão?

—Sim, senhor, são cinco; Catecismo do Padre Ripalda sobre a penitencia, (pag. 54) exame de consciencia, dôr do coração...

—Ouve—interrompeu o marido,—eis ahi o que não tinha nossa filha; o que ela tinha era uma forte dôr de cabeça.

—Cala-te e não digas loucuras... dôr de coração, proposito de emenda, dizer os pecados ao confessor e cumprir a penitencia.

—Muito bem, e crê que sua filha, hontem de tarde, atormentada pelas dôres da doença, estava nas disposições de ter esses requisitos, sem os quaes, segundo a Egreja romana, não se pode fazer uma confissão capaz de obter o perdão dos pecados? Vejamos: Antonia, em consequencia do ataque cerebral, sofrendo da cabeça horrivelmente, vae confessar-se; preparam-na de antemão para isso! dizem-lhe que o confessor irá dali a uma hora, e que é preciso fazer exame de consciencia; nada menos do que passar em revista tudo o que disse e fez desde a ultima vez que se confessou. Dali a uma hora vem o confessor, e a joven, que não pode sequer abrir os olhos, e a quem o menor ruido incomoda, tem que ouvir e responder ás perguntas que ele lhe faz; isto se ela pode falar, pois que do contrario o confessor pega-lhe na mão e começa a confessal-a pelos dedos. Depois disto, que não é pouco, vem a penitencia, que geralmente consiste em rezar tantos Padre Nossos, tantas Avé Marias, tantas Salvé-Rainhas, tantos Credos, etc. Suponhamos agora que o penitente tem dôr do coração e muito proposito de emenda; porém terá forças para cumprir a penitencia e fazer exame de consciencia? Mas isto ainda não é tudo; dali a uma hora vem o Santissimo, que muitas vezes é administrado ao enfermo no periodo agudo da doença, e estão tão convencidos de que é dificil ao doente o tomar a particula que a todo o doente que a recebe pergunta o sacerdote: Já passou? Por consequencia, sr.ª Brigida, são estas as boas disposições para a gente se salvar?

A mãe de Antonia calou-se, e algumas mulheres, e com elas o sr. João, disseram maquinalmente:

—Tem razão.

Julião conheceu que estava senhor da situação, e, levado dum grande zelo em anunciar o Evangelho, continuou desta maneira:

—A um enfermo não se deve falar senão de Jesus; na Palavra de Deus encontram-se frases tão consoladoras como estas: «O sangue de Jesus-Cristo nos purifica de todo o pecado». «Ainda que ande nos vales da sombra da morte, não temerei mal algum». «Na verdade, na verdade, vos digo que aquele que crê em mim tem a vida eterna». «Eu, diz Jesus, sou a ressurreição e a vida; aquele que crê em mim, ainda que esteja morto, viverá». Estas palavras necessariamente comoverão o enfermo e o farão exclamar:—E quem és tu?—E então o Filho de Deus responde ao enfermo: «Eu sou o bom Pastor; o bom Pastor dá a vida pelas Suas ovelhas». «Eu sou Jesus». E «todo aquele que vem a mim, não o lançarei fóra»...