Lembra-te de santificar o dia de descanço. Trabalharás seis dias, e farás neles tudo o que tens para fazer; o setimo dia, porém, é o dia de descanço consagrado ao Senhor, teu Deus; não farás nesse dia obra alguma, nem tu, nem teu filho, nem tua filha, nem o teu servo, nem a tua serva, nem o teu animal, nem o peregrino que vive das tuas portas para dentro; porque o Senhor fez em seis dias o céu e a terra e o mar e tudo o que neles ha, e descançou ao setimo dia; por isso o Senhor abençoou o dia setimo e o santificou.
Vamos agora travar conhecimento com um dos visinhos de Julião,—o dono da oficina de carpinteiro.
Chama-se João, homem de 65 a 68 anos. Apezar desta edade, ainda está vigoroso, e, se não fôra por algumas dôres que sofre, em consequencia de ter dormido muitas noites ao relento, no tempo da guerra dos sete anos, estaria forte como um rapaz. O seu caracter é bom, liberal desde a medula dos ossos, e é sargento da Guarda Nacional.
A sua familia compõe-se de Brigida, sua esposa, e uma joven de 18 a 20 anos, chamada Antonia, fresca e louçã como as flores de maio e na qual ele faz consistir toda a sua felicidade.
João está despedindo os oficiaes e aprendizes, dizendo-lhes:
—Vinde ás dez horas; já sabeis que ámanhã é dia de Santo Antonio, e que não se trabalha.
—Porém, mestre—observou um—a obra que ha oito dias encomendaram tem de se entregar na segunda feira.
—Nesse caso, trabalharemos no domingo até ás tres horas da tarde. No dia de Santo Antonio não se préga um prego em minha casa; é o dia do santo do nome de minha filha, e tanto basta. Ás dez horas aqui vos espero para o baile: não esqueçaes as guitarras; até eu hei-de bailar... É Santo Antonio quem vae presidir á festa. Minha filha poz-lhe no altar o docel de veludo, que me custou cerca de dez libras, e se lhe acenderão pelo menos quarenta luzes. Ide ver o altar.
Todos ficaram admirados do bom gosto que presidiu ao adorno do altar, e, pensando já no divertimento que iam ter, sairam alegres, esfregando as mãos de contentes.