—Julião, tu tens-te portado em minha casa como um homem de bem... os meus ultimos momentos aproximam-se, e desejo, já que outra coisa não pode ser, que me dês a tua palavra de honra que continuarás em minha casa sendo o que eras até aqui... Lembra-te de que esta casa é o amparo duma orfã, e de que, se tu nos deixares, não sei o que será dela... eu bem queria... mas...
E o ancião deteve-se como se temesse dizer alguma inconveniencia.
—Mestre—respondeu Julião soluçando,—Deus não quererá que morra, mas, se essa fôr a Sua vontade, cumpra-se... eu lhe prometo que continuarei velando pela casa com mais solicitude do que até aqui... e que Maria das Dôres será para mim uma irmã... já que outra coisa não...
—Julião—disse-lhe o seu mestre,—fala claro; um velho que se acha ás portas da morte faz-te este pedido.
—Pois bem—respondeu Julião,—já ha tempo que, comigo mesmo, tenho admirado as virtudes e prendas que adornam sua filha, porém o receio de que me atribuissem fins interesseiros, pela diferença de posições, obrigaram-me a calar e a não dizer palavra.
—Graças te dou, oh meu Deus—exclamou o ancião,—porque coroaste os meus desejos.
E, mandando chamar a filha, depois de consultar a vontade dela e de receber a aprovação de Josefa, Julião e Maria das Dôres se receberam por marido e mulher, na presença do oficial do registo civil. Pouco depois falecia o mestre de Julião.
A benção de Deus se estendeu sobre os dois esposos até ao ponto de conceder-lhes, como fruto do seu matrimonio, um menino, ao qual pozeram o nome de Paulo.
Tal é o estado de Julião e sua familia.
Já que é nosso amigo, entremos na sua loja. Nada ha de extraordinario que nos chame a atenção, excepto um quadro em cartão, colocado numa das paredes, que diz: