—Então já que assim o quer, lá vae. Na vespera de Santo Antonio, na ocasião da dança, cairam ao chão alguns pares. Antonia tambem caiu, como sabe, e na queda perdeu um brinco de diamante, cuja compostura valia precisamente as seis libras que valia o nosso segredo.
Dôres em seguida calou-se. Mestre João ficou pensativo, e depois perguntou:
—Onde está o brinco?
—Em casa do ourives—respondeu Dôres.
—Porém tua mãe sabe-o?
—Não, meu pae; eu dei a guardar o brinco a Dôres para que o entregasse a vocemecê, se eu morresse, e, se me restabelecesse, pensava mandal-o concertar, sem dizer-lhe nada, e por meio do meu trabalho arranjar a quantia precisa para a compostura, porém Dôres aconselhou-me a que dissesse isto mesmo a meu pae.
—Bom conselho; vou dar-te o dinheiro, e eu direi a tua mãe o que se me oferecer sobre o caso; ou ela pega no santo e o põe onde eu o não veja, ou queimo-o para aquecer a cola. Não quero cá em minha casa mais santos de tal natureza. Tua mãe que vá com o santo e quantos desgostos nos tem causado. Nada, nada, para fóra de minha casa idolos de madeira. Não quero que haja aqui outra coisa senão a Biblia; isso me basta.
O carpinteiro e sua filha meteram-se em casa, e poucos momentos depois apareceu Antonia ao limiar da porta para dar o dinheiro a Dôres.
As duas amigas separaram-se sem reparar numa pessoa que as escutava, e que exclamou quando elas desapareceram:
—Que descoberta! Corro a ver se encontro o P.ᵉ Francisco para dizer-lhe o que vi e ouvi. Suas palavras eram muito misteriosas. Não, não as esqueço, e logo... lhe deu muito dinheiro, muito, muito.