Aquela que assim falava subiu as escadas com a agilidade que lhe permitiam os seus muitos anos.

Como havemos de encontrar esta personagem, vamos descrevel-a a largos traços.

Era a comadre Claudina, uma mulher que andava pelos seus setenta anos de edade. O nome com que vulgarmente era conhecida no bairro era o da tia dos enredos, e realmente que assim era. O seu prazer era falar duns e outros, e não poucas dissenções tinha causado em muitas casas. Sustentava-se esta mulher de esmolas que lhe davam.

Não implorava a caridade publica, porém sabia perfeitamente levar a vida para arranjar donativos da Sociedade de S. Vicente e outras; além disso, nunca faltava ás festas de egreja, e ali se colocava junto da pia da agua benta, que oferecia ás senhoras da fidalguia, recebendo em troca, como esmolas, algumas moedas. Além disso, fazia quantos recados lhe mandavam, levando sempre o rosario na mão. Eterna bisbilhoteira, nada se sabia da sua vida, senão o que ela dizia: que era de muito boa familia, e que nunca quiz casar-se, apezar de se lhe oferecerem vantajosas ocasiões. Deste ser tão repugnante serviu-se o P.ᵉ Francisco para se pôr ao facto da vida intima das duas familias, a de mestre Julião e a de mestre João.

A velha ouviu a conversa, e, sem saber do que se tratava, correu a casa do P.ᵉ Francisco para dizer-lhe o que muito bem lhe pareceu, porém mentindo, e por tal modo que bem se pode dizer que a ela estava reservada a condenação descrita no Apocalipse, cap. 21: 8: «e... a todos os mentirosos, a sua parte será no lago ardente de fogo e enxofre, que é a segunda morte.»

Assim que chegou a casa do P.ᵉ Francisco, disse-lhe:

—Senhor, descobri uma coisa espantosa. Esta tarde, quando vinha da egreja, de assistir á festividade das Quarenta horas, vi á porta a filha do carpinteiro com a mulher do vidraceiro. Estavam tão absortas na conversa que não repararam em mim. Eu aproximei-me, quanto pude, delas, e ouvi que Antonia dizia á sua amiga: «Ahi tens o dinheiro, e arranja tudo isso depressa. Tenho dó de meus paes! Oh! se minha mãe soubesse!...» E passou-lhe para a mão uma certa soma de dinheiro.

O sacerdote ficou pensativo por alguns instantes, dizendo por fim:

—E quanto dinheiro julga que Antonia deu a Dôres?

—Pelos modos vinte libras—respondeu a velha.