—Mais do que nunca—prosseguiu mestre João,—porque conheço o infame caluniador que sómente trata de perder um honrado pae de familia.

—Senhor João!...

—Senhor P.ᵉ Francisco, prudencia, e escute-me como eu o tenho escutado. Na vespera da festa que tantas desgraças acarretou a minha familia, minha esposa adornou minha filha com as joias que eu lhe dei no dia do nosso casamento. Quando minha filha dançava perdeu uns diamantes dos seus brincos, e, prescindindo eu tambem dalguns pormenores, direi que minha pobre filha entregou esses brincos a Dôres para que os mandasse concertar se ela se restabelecesse, e para que mos entregasse, se morresse. Minha filha julgava que Dôres adeantava o dinheiro, pagando-lhe ela a pouco e pouco. Dôres, porém, por ser sua amiga, aconselhou-a a que me contasse tudo.

«Assim o fizeram, e esta mesma tarde lhes entreguei o dinheiro que custou a compostura. Veja como tão cruelmente caluniaram uma familia honrada, tão sómente porque o senhor ou outra qualquer pessoa viu minha filha dar o dinheiro á sua amiga. Sabe agora qual é o seu dever? Quer cumprir com o dever que o seu ministerio lhe impõe?

—Eu o que creio é que vocemecê está contando uma historia para salvar o vidraceiro. Aposto que não aparecem os brincos.

Mestre João, já meio fóra de si, levantou-se de novo, e, tirando do bolso um pequeno embrulho, disse:

—E chama-se ministro do Senhor! Não, e mil vezes não. Não o é.

Abriu o embrulho, tirou de dentro uma caixinha, abriu-a, e mostrou os brincos, cujas pedras, sob a acção da luz do candieiro, brilharam intensamente, ferindo a vista dos circunstantes. Então o carpinteiro, voltando-se para sua mulher, disse-lhe:

—São estes os teus brincos?

—São—respondeu Brigida, depois de os ter examinado.