—P. Francisco, se não estivesse em sua casa, tel-o-hia ensinado a ter cuidado com a lingua. Diga-me, o senhor que se chama ministro de Jesus Cristo: Em que pagina do Evangelho aprendeu a insultar assim uma pessoa que não está presente? Onde estão essa caridade e amor que devem revestir um ministro do Senhor? P. Francisco, muito pouco sei ainda do Evangelho, porém digo-lhe que o senhor será um ministro do papa ou do arcebispo, mas não é um ministro de Jesus.
—Repito o que ha pouco disse. Sofrerei com paciencia tudo o que disser. Com que então, porque não sou casado, não sirvo para dar conselhos a uma mulher casada? Então não pode haver religião, porque nenhum ministro é casado nem nunca o foi.
—Perdão... O senhor sabe perfeitamente que na primitiva egreja os sacerdotes eram casados, e a noite passada ouvi ler uns versiculos da Biblia a Julião, os quaes dizem que os bispos e diaconos devem ser todos casados.
O carpinteiro voltou-se para sua mulher e disse-lhe:
—Vá, vamos daqui para fóra.
—Espere um pouco, mestre; ouça lá uma historia. Ha em Madrid uns aldeãos que teem uma filha. Esta filha cae doente, muito doente. Uns visinhos, muito amigos do pae, entram-lhe em casa e aproveitam-se da confiança que depositam neles para abrir as gavetas e roubar o que encontram. Sucede, porém, que a pobre enferma... passemos por alto alguns pormenores... a enferma tem na gaveta do seu toucador umas joias que lhe são roubadas por uma sua amiga; e, como se isto não fosse bastante, apenas se restabelece, a sua amiguinha a seduz para que roube seus paes, e hoje os visinhos da casa em que vivem viram a joven, ainda mal convalescente, entregar á sua amiga uma boa soma. Conhece as personagens desta historia?
—Sim, senhor.
—Continuará a crêr na sinceridade religiosa de Julião e sua familia?
—Mais do que nunca—exclamou com exaltação o carpinteiro.
Brigida e o P.ᵉ Francisco entreolharam-se, possuidos de grande surpreza.