Ernesto continuava dormindo, somno que se respeitou durante meia hora que passaram entretidos a contemplar o quadro.
Por fim decidiram-se a despertar o hospede, e Ernesto deixou a cama entre applausos, felicitações e abraços dos amigos.
Tudo sorria em volta de Ernesto, e elle pensava de si para si:
—Hoje estou com os meus amigos; ámanhã... oh! ámanhã irei vêl-a ao seu palacio de Caramanchel.
Ernesto ignorava que Amparo tivesse morrido para elle.
Os seis amigos foram para o restaurant do Arminho, onde estava encommendado o almoço.
Os poetas e os pintores são tão pobres de dinheiro como ricos de imaginação. Quando a venda de um{90} quadro ou a estreia de uma peça lhes rende algum dinheiro, gastam-no alegremente com o mesmo desprendimento de principes. Ao acabar-se o ultimo centimo puxa-se pela intelligencia e cria-se outra obra. Assim passam a vida esses sonhadores, esses filhos do genio que vivem acariciados pelo sopro da gloria e pela interminavel melodia das suas illusões.
O restaurant do Arminho hoje já não existe; ha ainda pouco tempo que fechou as suas portas, convertendo-se no de Madrid. Mas seja como fôr, occupemo-nos do primeiro.
O Arminho no seu pequeno, mas elegante recinto, não era frequentado por pobres ou economicos. O serviço era á lista, e os pratos caros, mas bons.
Os frequentadores sabiam que um simples almoço lhes custava um par de duros, mas sabiam tambem que era preciso pagar, não só os manjares que depositavam no estomago, como as gravatas brancas dos creados e o serviço de prata em que eram servidos.