N'uma grande cidade como Madrid ha o costume de se atirar o ouro por um lado, emquanto que do outro alguns desgraçados morrem de fome.

Marcial encarregára-se do almoço. N'aquelle dia os estomagos dos amigos estavam á sua disposição. Escreveu n'um papel os quatro pratos fortes de que devia compôr-se, deixando ao gosto do cosinheiro do restaurant as sobremezas e os vinhos.

Os seis jovens, alegres e cheios de illusões, tinham bom apetite; comeram como quem não sente remorsos na consciencia, falaram de pinturas, de theatros, de mulheres.

Ernesto ouvia com certa satisfação os seus amigos; fallava menos do que elles sem duvida, porque tinha a imaginação mais preoccupada.

Quando chegou o Champagne, o vinho da alegria, do amor, quando começaram os brindes e os epigrammas picantes. Marcial levantou-se com um copo na mão, e disse:

—Brindo pelo original que serviu de modelo ao{91} nosso amigo para pintar a formosa figura de Esther no quadro que será a admiração de Madrid.

Todos esvasiaram os copos.

—E se essa figura que tanto celebras fosse uma creação minha? disse Ernesto, sorrindo-se.

—Então, respondeu Marcial maliciosamente, brindo pellas bellas creações do teu genio, e se alguma vez tiver a triste ideia de me casar, pedir-te-hei primeiro que pintes uma mulher a teu gosto, e juro-te que não consumarei o sagrado laço do matrimonio sem que encontre uma de carne que seja egual á do teu retrato. Mas, que queres, parece-me que já vi a tua Esther com trajes á moderna.

—Estás enganado, respondeu Ernesto com embaraço.