Ernesto dirigiu-se para a porta seguindo o creado, quando ouviu uma voz que lhe não era desconhecida, dizendo:

—Onde está este mau hespanhol, que é preciso vir a Roma, á Via Appia para lhe dar um abraço?

—Oh! é o sr. D. Ventura! exclamou o pintor, vendo entrar um sujeito d'uns 50 annos, dando o braço a uma menina tão formosa como elegante.

—Sim, sou eu, querido pintor, sou eu, o D. Ventura do café Suisso, o amigo dos artistas, o enthusiasta pela divina arte de Apollo; eu que, apezar do meu enthusiasmo pela pintura, nunca soube collocar n'um rosto o nariz no seu verdadeiro lagar. Mas, senta-te, querida Amparo, senta-te; os homens do talento são sem-cerimonia como aldeãos, e francos como a verdade—e apoz pequena pausa, continuou:

—Começarei por pedir-lhe duas chavenas de café.

Ernesto deu ao creado as ordens necessarias.

A joven, que se sentara n'uma cadeira d'onde distrahidamente contemplava os quadros do atelier, dispensou um sorriso de cumprimento ao pintor, deixando vêr uns dentes pequenos como os de uma creança, e brancos como o miolo do coco.

Tudo o que é bello attrae irresistivelmente os homens de talento.

Ernesto fitou a joven.{8}

Amparo teria 20 annos. O seu rosto de uma graça attrahente, provocadora, via-se quasi animado por um d'esses sorrisos em que ficamos em duvida se são a manifestação do coquettismo ou a ternura da alma.