Carta interrompida
Penetremos na encantadora quinta que D. Ventura possuia em Carabanchel de Arriba; mas não nas elegantes e luxuosas habitações, pois que Amparo que é quem procuramos, está n'um caramanchão situado no extremo de uma recta e larga rua formada por altos e copados castanheiros da India.
Para que o leitor se inteire de tudo o que succedeu desde que perdeu de vista a formosa herdeira de D. Ventura, bastará dar-se ao incommodo de lêr a carta que Amparo escreve a uma amiga intima e antiga condiscipula.
Leiamos, pois:
«Minha querida Luiza
«Desde o dia do meu casamento com o conde de Loreto, isto é, ha um mez, nem tu sabes o que tem sido de mim nem eu sei nada de ti. Agora que meu marido me deixou, pois alguns negocios o prendem todo o dia em Madrid, vou dar-te parte da minha vida.
«Escrevo-te, ouvindo o canto das aves sobre a minha cabeça, e aspirando o perfume do jasmim e da madresilva. A minha alma necessita da doce quietação que me rodeia, para poder expressar-te toda a immensa felicidade que sinto.
«Ah! Luiza, já sei que amas um homem, e que és egualmente amada por elle. Porque{94} se não casam? E porque não veem para o campo?
«Ignorava que no coração d'uma creatura o amor infundisse uma felicidade tão ineffavel como a que experimento. É bem verdade que Fernando, meu marido, é o melhor dos homens.
«Se visses a maneira amavel e obsequiosa que tem sempre para commigo! Eu sou, por assim dizer, a rainha absoluta d'este pequeno paraizo. Meu pae ri-se do que chama caprichos de menina amimada, e Fernando approva immediatamente, tendo por logico e natural até o mais estranho e excentrico.