E levando a mão á cabeça, em tom desesperado, exclamou:

—Tudo isto é um sonho! É impossivel que isto seja realidade! Que mal fiz a esta mulher, para que depois de mostrar-me o céu, me lance no abysmo do desespero?

—Ernesto, senhor Ernesto, por piedade. Conheço que fui uma imprudente, que sou culpada, mas que quer...

—Senhora, exclamou Ernesto com dignidade, ha procedimentos, que nem Cicero com toda a sua eloquencia, poderia explicar satisfatoriamente, e o seu, é um d'elles; e, se eu, vendo-me enganado, me quizesse vingar, se eu n'este momento em que a vida me é indifferente, commettesse um d'esses crimes que lança o desespero nos homens, seria mais desculpavel ainda ante os homens do que a senhora ante a sua consciencia.

—É verdade, é verdade! murmurou Amparo, escondendo{98} o rosto nas mãos. Póde-me matar se lhe apraz.

—Não tenha medo; tenho bastante coragem para receber a morte sem me defender. Até ainda ha pouco a esperança, essa bella flôr da vida que tudo embelleza, esse grato perfume da alma, acariciou o meu coração, porque a luz d'uns olhos que outr'ora se fixaram nos meus cheios de ternura, illuminava todo o meu sêr; mas, agora, encontro-me subitamente mergulhado na mais profunda escuridão. Foi tudo um sonho, tudo uma mentira; a senhora nunca me amou; as noites de Florença foram momentos passageiros de delirio, entretenimento de mulher coquette, esmola concedida por uns labios lisongeiros, falso ouropel que tive a veleidade de receber por ouro puro; e emquanto recebia um beijo falso, dava a minha alma inteira. Ah! Que louco fui! Se ao menos tivesse tido compaixão de mim, se se tivesse dignado escrever-me uma carta, dizendo-me: «Ernesto, esqueça tudo quanto se passou entre nós; vou casar-me com o conde de Loreto, meu pae exige-o, é um compromisso que não posso evitar...» uma desculpa qualquer, uma mentira ao menos, porque ha mentiras desculpaveis porque nos fazem bem... Mas não; a senhora, pelo contrario, guardou silencio, e eu continuava alimentando as minhas illusões. Hoje chego a esta casa com a alma repleta de amor e de esperança e o seu pae diz-me com a mesma frieza e indifferença como se me falasse de um dos seus negocios: «Amparo casou com o conde de Loreto.» Comprehende, senhora, o effeito que em mim produziu esta noticia? As palavras não matam porque eu ainda vivo.

Amparo chorava. Só então comprehendeu a gravidade da sua imprudencia. O conde de Loreto fascinara-a: desde o dia das corridas em Paris amava-o de toda a sua alma, mas se antes de casar ouvisse as justas recriminações que lhe dirigia Ernesto, não teria pronunciado o sim de esposa junto ao altar.

Mas o coquettismo, essa arma terrivel da mulher, quando esgrimida contra um coração enamorado e{99} sensivel, dera os seus terriveis fructos e jé era tarde para retroceder.

Por isso Amparo não encontrava palavras com que se defendesse, com que se justificasse.

N'estes casos, a mulher tem dois caminhos; ou rir-se do amante enganado, ou confiar na sua generosidade e pedir-lhe perdão.