Amparo nem por sonhos pensou no primeiro caso; conhecia bem o amor de Ernesto e a bondade do seu coração; por isso appellou para o segundo recurso, e, levantando a cabeça, apresentou ante os olhos do pintor o seu rosto interessante, formoso e pallido, e, derramando lagrimas, disse:

—Pois bem, sim, Ernesto; fui uma coquette, uma imprudente, uma leviana. O meu procedimento não tem desculpa; mas amo o meu marido e preferiria cem vezes a morte a faltar ao que a minha honra e os meus deveres de esposa me impõem. Se não é bastante generoso para perdoar, mate-me, antes que Fernando conceba a menor suspeita, e antes que a mais pequena nuvem empanne a sua felicidade, prefiro morrer. Mas o senhor é bom e terá dó de mim.

Ernesto começava a sentir-se enternecido. Amava tanto aquella mulher que não se sentia com coragem para lhe negar fosse o que fosse. Amparo aproveitava-se das vantagens que ia conquistando.

—Sejamos, pois, amigos, como nos primeiros dias em que nos conhecemos; irmão, se quizer, mas perdôe-me e esqueça-me... não será tão cruel que m'o negue.

—Amparo, a senhora não póde imaginar o sacrificio que me pede; mas faz bem em confiar em mim. Como poderei ser a causa da desgraça da mulher que amo de toda a minha alma? Perdôo-lhe todo o mal que me fez, mas esquecer... é impossivel. Para amar não é preciso ser correspondido. Mas para que prolongar por mais tempo uma scena que me despedaça o coração? Adeus, minha senhora, seja feliz, viva socegada, porque entre os dois abriu-se, desde hoje, um abysmo, no fundo do qual estão sepultadas{100} todas as minhas illusões, toda a minha felicidade.

E Ernesto sahiu do caramanchão como o demente que arrebatado pela vertigem do seu doente cerebro não sabe para onde caminha.

O primeiro movimento de Amparo foi detêl-o; porém conteve-se, calculando que ia commetter uma segunda imprudencia, e de mais graves consequencias do que a primeira.

Uma vez só procurou serenar-se.

—Pobre Ernesto! disse ella, enxugando as lagrimas. Nunca imaginei que fosse tão grande o seu amor. Ah! Tem muita razão para me odiar. Foi uma imprudencia.

E, recordando-se de que uma só palavra de Ernesto poderia perturbar a sua felicidade, exclamou: