Marcial e André recolheram n'aquella noite mais cedo que de costume.

Ernesto continuava deitado; no quarto não tinha luz. Marcial approximou-se da cama com um phosphoro acceso para vêr se o seu amigo ainda dormia.

O pintor tinha os olhos abertos.

O poeta accendeu a vela que estava na mesa de cabeceira, puxou uma cadeira e sentou-se proximo da cama do amigo.

—Olha, Ernesto, a dissimulação só tem logar entre pessoas que se não estimam. É em vão que procuras occultar-me o que te succedeu. Soffres, tens uma d'essas dôres immensas que opprimem o coração. Basta olhar-te para a cara para te adivinhar. Comprehendes que, estimando-te como a um irmão, não me posso retirar tranquillo, só porque me dizes: «Não tenho nada». Confia, pois, na minha amizade, deposita em mim as tuas maguas. Quem sabe se poderei servir-te de consolação?

Ernesto apertou carinhosamente a mão do amigo e disse:

—Sei quanto me estimas; sei de quanto é capaz o teu generoso coração. Somos amigos ha muito tempo, e nunca tive o mais leve motivo para duvidar da tua amizade. Em nome, pois, d'essa amizade, peço-te que respeites o meu silencio e que me deixes só.

—Está bem, obedeço; mas não esqueças nem um só momento de que me encontro disposto a fazer o sacrificio da minha vida, se com ella posso evitar-te algum desgosto.

Marcial sahiu do quarto de Ernesto na occasião em que ia a entrar André.

—Onde vaes? lhe disse.