—Vi e admirei o precioso quadro que tem na exposição de pintura, disse o conde. É na verdade uma obra-prima. Tenho a absoluta certeza de que alcança o primeiro premio, e venho vêr se o senhor m'o quer vender.

—Senhor, disse Ernesto, creia que concede ao meu trabalho mais merecimentos do que os que realmente tem. Mas de modo nenhum desejo desfazer-me d'elle emquanto o jury não resolver.

—Entretanto póde confiar, disse o conde, que o jury lhe concede o primeiro premio, e eu compro-lhe o quadro{104} como uma obra-prima. Póde pedir-me quanto quizer sem receio de que me pareça exaggerado o preço. Felizmente sou rico, e sei avaliar o valor das obras como a tela de Esther.

—Tenho tambem que advertir-lhe, senhor conde, de que um correspondente da casa de Rotschild já me fez proposta sobre o quadro.

—Rotschild é mais rico do que eu, disse o conde, sorrindo-se, mas tenho mais direitos do que elle ao quadro a que nos referimos.

—O senhor tem mais direito?! exclamou Ernesto, comprehendendo o ponto para onde o conde desejava levar a conversa.

—Sim, porque o senhor não ignora que a cabeça de Esther tem uma grande parecença, parecença de retrato perfeito, com uma mulher que tenho em muita conta, e cujo bom nome me importa mais do que e vida.

—Não serei eu que o contradiga na sua opinião, senhor conde, mas se é retrato, é por pura casualidade, pois foi pintado de imaginação.

—Creio, senhor, ajuntou o conde manifestando a sua importancia, que n'estas coisas o melhor é falar com a maxima franqueza.

—Nada ha de que eu mais goste.