—Mas elle não tinha nenhum direito para fazer o que fez, para me pintar n'um quadro com risco de me comprometter, exclamou Amparo tartamudeando.

O conde sorriu-se, e fazendo um movimento de hombros, disse:

—Não pódes calcular o quanto me fez soffrer esse homem. Durante a nossa entrevista, falei-lhe com doçura, com humildade, pedi-lhe que me vendesse o quadro, suppliquei-lhe, e julgando, sem duvida, que as minhas palavras eram dictadas pelo medo, que eu era um cobarde, teve o atrevimento de me{107} dizer que se não ficava satisfeito com a sua negativa, o assumpto liquidava-se d'outra maneira entre homens. Desgraçado! Necessitei de todo o valor, de toda a força do homem que se não póde bater, depois de ter morto cinco homens, para não o esbofetear na sua propria casa. Mas quem sabe se esse insensato me fará faltar ao meu juramento e terei de matal-o.

—Não, não, Fernando! Não quero que te batas! Não quero que te exponhas! A tua vida pertence-me!

—Mas se esse homem, depois de ter dado pasto a maledicencia com o seu importuno quadro, me insultar na rua, no theatro, n'um passeio, o que hei de fazer senão bater-me?

—Pensa que um duello não serviria senão para augmentar essa maledicencia que nos assusta, esse murmurio que receamos.

—Sim, concordo; mas não vejo outro caminho.

—Dize-me, Fernando, tens confiança em mim?

—Se a não tivesse, estaria como estou, aqui?

—Obrigada, meu amigo.