—Mas a que proposito veiu essa pergunta?

—Porque conheço o bello e nobre caracter de Ernesto.

—Vaes fazer-me algum elogio das suas qualidades moraes?

—Não; vou tranquilizar-te. Ouve. Uma casualidade fez com que eu conhecesse Ernesto em Roma. Depois acompanhou-nos a Florença. Bondoso e illustrado, levou-nos a toda a parte, e não demorou muito que não percebesse que eu lhe não era indifferente. Bem sabes, Fernando, que não tenho segredos para ti, porque o meu coração e a minha vida pertencem-te, porque te amo de toda a minha alma.

—Sim, sim, não tenho duvidas a esse respeito e comprehendo perfeitamente tudo quanto se póde passar entre uma menina e demais formosa como tu e um homem como Ernesto, que viajam juntos. Amou-te, fez-te uma declaração que não regeitaste, já por{108} coquettismo, já por compaixão. Isso é natural nas mulheres, não as censuro; mas ás vezes traz más consequencias. Agora, por exemplo: Ernesto ao voltar a Hespanha, encontra-te casada e julga-se com o direito de fazer a tua e a minha desgraça, e apezar d'isso não tenho a mais pequena duvida de que esse rapaz tem uma boa alma, um generoso coração.

—Dizes bem, é uma desgraça. Tomei aquelles passeios em Florença, por um passatempo, por uma distracção. Aborrecia-me. Ernesto, pelo contrario, julgou que eu o amava como Heloisa amou Abelardo... Lastimo tão funesto engano. E agora auctoriza-me para que meu pae compre o quadro, eu procurarei a maneira, sem faltar aos meus deveres de esposa, de liquidar este assumpto satisfatoriamente, porque nada me interessa tanto como a tua felicidade, meu Fernando.

—Repara, Amparo, que o que me propões é uma imprudencia. Ernesto para ceder aos teus pedidos, póde ser exigente.

—N'esse caso, dir-te-hei: «Fernando, sou tua; o teu amor é a minha vida. Mata esse homem, que me julgou capaz de faltar aos meus deveres.»

O conde soltou um grito, abraçou com enthusiasmo a mulher.

—Ah! disse Amparo, este abraço prova-me que te inspiro confiança, e que annues ao meu pedido.