—Faze o que quizeres; mas fica sabendo que se antes de vinte e quatro horas esse homem não explicar nos jornaes, de um modo satisfatorio para mim, a parecença da condessa de Loreto com a Esther do seu quadro, não me fica outro remedio senão matal-o.

E o conde cumprimentando a esposa, sahiu do quarto.

Amparo ficou por um momento como que oppressa sob o peso da ameaça que o marido acabava de proferir.

Pela primeira vez comprehendeu até onde podia{109} conduzil-a a imprudencia do seu coquettismo em Florença.

Rapidamente lhe passaram pela imaginação as recordações d'aquellas noites passadas com Ernesto no jardim do hotel do senhor Rosales.

—É preciso evitar a todo o transe que se batam. Um desafio entre meu marido e Ernesto produziria um escandalo, e a maledicencia, duvidando da minha honradez, poderia menoscabar na honra do conde. Se isto succedesse, toda a felicidade que agora disfructo desappareceria. Não, não, falarei com Ernesto e supplicar-lhe-hei se tanto fôr preciso.

Amparo deteve-se, como se tivesse commettido alguma imprudencia.

—Mas se lhe peço uma entrevista, continuou, ainda que esta seja com a nobre intenção de evitar uma desgraça, se se sabe que a mulher do conde de Loreto e o auctor do quadro de Esther se viram sem testemunhas, então...

Amparo escondeu o rosto entre as mãos, rompendo em amargo choro, porque comprehendia que por todos os lados sómente encontraria difficuldades.

N'aquelle momento entrou D. Ventura.