—Que é isso? Que tens? Porque choras? Acabo de encontrar o teu marido que me cumprimentou com uma frialdade um tanto importuna. Vou-me convencendo de que os aristocratas quando se casam com a filha d'um plebeu, embora este seja o mais honrado e o mais rico do mundo, sempre julgam que lhe fazem favor. E olha, como isto me desgosta, e caso continue assim, separo-me de vocês, ainda que o não te vêr me amargure a velhice e abbrevie os dias que me restam de vida.

D. Ventura falava rapidamente, dissimulando mal o desgosto que sentia e as lagrimas que lhe começavam a assomar aos olhos.

—Meu querido pae. Creio que nos ameaça uma grande desgraça.

Este grito sahido do peito de Amparo fez empallidecer o pae.{110}

—Uma desgraça! exclamou. E que desgraça é essa?

—Ernesto foi um imprudente ao tomar-me para modelo do seu quadro.

—E é só isso? perguntou D. Ventura que não via motivo para se sobresaltar d'aquelle modo. Se o motivo é o quadro, se não querem que elle continue exposto, comprem-lh'o, e é assumpto concluido.

—Mas elle não o quer vender.

—Ora! Porque não lh'o pagam bem.

—Não, meu pae, não. Ernesto não o vende ainda que lhe offereçam um milhão.