Amparo, pois, encontrou casualmente Ernesto em Roma. Tinha ouvido dizer que possuia talento; agradaram-lhe alguns quadros que viu no atelier, e não lhe parecendo má a figura do pintor, dirigiu-lhe alguns olhares e sorrisos, d'esses que no coração de um homem sincero e apaixonado causam uma terrivel tempestade.
Não pensava a joven que aquelle coquettismo era condemnado pelo bom-senso. Empregou-o com a mais santa intenção, apezar de começar a sentir-se aborrecida{10} em Roma, onde andava só com seu pae por toda a parte. Ernesto, então, foi olhado, como um recurso, como uma distracção.
Quando Amparo sahiu de casa do pintor, ia convicta de que o tinha captivado.
—Pensará em mim, disse ella, virá vêr-me, falaremos de pintura, de musica e d'esta fórma aborrecer-me-hei menos.
Amparo ignorava ainda as terriveis consequencias que os seus olhares e sorriso deviam exercer na alma do artista. Se o soubesse, indubitavelmente se teria abstido, porque o seu coração era bom, generoso e tão impressionavel, que se commovia ante a mais ligeira contrariedade, como a folha do trémulo alamo ante o mais ligeiro sopro do zephiro.
[CAPITULO II]
Uma noite no Colyseu
Quando Ernesto ficou só, em vez de pegar na paleta e nos pinceis approximou-se da janella e ficou pensando na joven hespanhola que acabava de sahir.
Depois de uma hora de meditação, retirou-se da janella, dizendo para comsigo:
—Se me encommendassem um quadro onde figurasse alguma das tres encantadoras filhas de Jupiter e de Eurinome pediria a Amparo para me servir de modelo.