E, tomado de uma subita inspiração, pegou na paleta e nos pinceis e começou a pintar, n'um pedaço de tela, uma cabeça, mas com tanta rapidez que, em vinte minutos, estava completamente esboçada.

Afastou-se um pouco do cavallete para examinar o seu trabalho, e disse:

—Sim, é ella. Tenho boa memoria.{11}

E como não se contentasse com a sua opinião, chamou o creado e perguntou-lhe:

—Com quem se parece esta cabeça?

—Bravo! Com quem se ha-de parecer? Com a senhora que esteve cá, respondeu o creado sem vacillar. Não é preciso ser muito esperto para a reconhecer.

Ernesto tornou a pegar nos pinceis e retocou o seu trabalho.

Duas horas depois tinha terminado um soberbo retrato de Amparo, que o pintor mais escrupuloso não recearia pôr em exposição.

Tinha promettido a D. Ventura ir no dia seguinte almoçar com elle ao hotel de Londres na praça de Hespanha, onde estavam hospedados.

Ernesto levantou-se cedo, fez a barba, vestiu-se com mais cuidado do que de costume, admirando-se de ter gasto tanto tempo ao espelho.