—Porque a suspeital-o não teria vindo, não é verdade? Agora vejo que fiz bem em pedir a meu pae que escrevesse a carta. Mas, peço-lhe que se sente aqui, ao meu lado; tenho que lhe falar de um assumpto de que depende a tranquillidade da minha alma, o senhor que sempre foi tão bom para commigo creio que não deixará de sel-o neste momento.{113}
Ernesto sentou-se ao lado de Amparo, mas sentia-se muito commovido, agitado e quasi sem forças para fixar os seus olhos no formoso rosto da condessa.
—Conheço, senhor Ernesto, que me não assiste nenhum direito para lhe pedir algum favor por mais insignificante que seja, porque comprehendo que deve estar resentido commigo. Seria inutil desculpar-me; confesso-me culpada, e fui, se assim quizer, uma coquette que pagou esse tributo de vaidade de que poucas mulheres escapam, e por isso vou-lhe falar, não ao homem em cujo braço me appoiei para visitar o Colyseu de Roma e cujas palavras carinhosas resoaram nos meus ouvidos como uma embriagadora musica durante as noites de Florença, mas a um cavalheiro, a um homem generoso e desinteressado, em cujo nobre coração só se albergam sentimentos nobres, emfim, a si, senhor Ernesto, a quem não quero occultar a situação em que me encontro, a si de quem depende a paz do meu lar, a tranquillidade do meu espirito.
Amparo deteve-se, levou uma das lindas mãos aos olhos e enxugou as lagrimas que durante a conversa lhe assomaram.
—Não creia, senhora condessa, que os meus labios pronunciem uma só palavra que seja de recriminação, disse Ernesto. Desde que cheguei a Madrid, e assim que soube que a senhora pertencia a outro, que era a esposa do conde de Loreto, senti tão profunda dôr no coração, tão grande magua na alma, que só então pude avaliar a enorme paixão que me tinha inspirado. Não sou d'aquelles homens que se resignam a perder n'um momento as esperanças que durante muito tempo acariciaram. Será isto uma desgraça, concordo, porque não devemos encarar a sério esta vida.
Ernesto passou a mão pelo rosto, fez um esforço para se dominar e continuou:
—Sou um nescio! Estou falando de mim, a senhora condessa, em logar de lhe perguntar o que deseja e apressar-me a satisfazel-a. Peço-lhe desculpa{114} das minhas anteriores divagações, e ordene tudo quanto lhe aprouver.
—Não, senhor Ernesto, não; conheço todo o mal que o meu coquettismo lhe causou, e por conseguinte não podem ser-me indifferentes os seus soffrimentos. O que quero, o que lhe imploro é que me perdôe e me não odeie, o que lhe peço é que annua ao que esta manhã lhe foi pedir meu marido, porque só assim poderá a minha alma viver tranquilla e restabecer-se a paz n'esta casa.
—E... pensou bem no que me pede, minha senhora?
—Sim, sei que para si é um grande sacrificio. Se o senhor fosse outro homem nunca me resolveria a pedir-lhe tão grande favor, senhor Ernesto, mas do senhor espero tudo, porque se tanto fôr preciso, lançar-me-hei a seus pés até que o consiga, porque o senhor não quererá que nos meus olhos nunca mais sequem as lagrimas, nem vêr-me desprezada pela maledicencia e odeiada de meu marido a quem tanto amo; porque se o senhor não cede acontecerá indubitavelmente uma desgraça.