Ernesto fixou em Amparo um olhar intenso, profundo, como se pretendesse lêr-lhe no fundo d'alma, e depois disse:

—O senhor conde de Loreto é um homem valente, um dextro atirador que tem provado a sua habilidade e o seu valor em mais de uma occasião. Sei que se eu recusar terminantemente ao que me pede nos bateremos, e não sendo eu um espadachim, será d'elle o melhor partido. Tambem não terei grande trabalho para lhe provar, minha senhora, que a ideia de um duello de morte pouco me preoccupa. A vida só é preciosa para os que são felizes e a senhora destruiu toda a minha felicidade. De mais ha já algum tempo que goso de pouca saude, e por conseguinte é desnecessario pensar em mim. Só temo que em Madrid me tomem por um cobarde; é epitheto que não mereço e por isso me recusei a satisfazer os pedidos do senhor conde.{115}

—E quem ousará chamar-lhe cobarde? disse Amparo. Para que os seus amigos fizessem similhante apreciação, seria preciso que houvesse alguma cousa que não fosse natural. Acaba de chegar de Roma com o quadro de Esther; em Roma estive este verão e lá esteve tambem meu marido. Nada tão facil e tão interessante para a sublime obra que expôz n'um dos salões da Exposição de pintura, como inventar uma d'essas anecdotas que fazem na posteridade parte da historia de um quadro. Por exemplo: o senhor precisava de um modelo para Esther; encontrou-me com o conde, então meu noivo e seu amigo, e encontrando nas minhas feições tudo quanto sonhava para a figura de Esther, pediu a Fernando para que eu servisse de modelo. O conde annuiu com uma condição: a de comprar-lhe o quadro pelo preço em que o senhor o avaliasse; e effectivamente fechou-se o negocio por vinte e cinco mil duros. Tudo isto é o mais natural do mundo. Ninguem depois de lêr nos jornaes a historia da parecença de Esther com a condessa de Loreto, assignado por si, será capaz de dizer que semelhante declaração foi escripta pela mão de um medroso.

—Effectivamente, minha senhora, respondeu Ernesto, d'esse modo, na minha historia, haveria um episodio fabuloso, o de vender um quadro no seculo da photographia pela fabulosa quantia de meio milhão, e estou certo de que tão vantajosa venda produziria inveja a muitos. Mas ignorando todos que conheci em Roma e que acompanhei a Florença D. Amparo d'Aguillar, ninguem supporá qual a verdadeira historia da parecença de Esther com a condessa de Loreto; e para mim, basta-me que a senhora o saiba e que o não ignore o senhor conde. Tambem julgo que a senhora não quererá fazer-me o aggravo de me julgar interesseiro. O meu quadro não vale vinte e cinco mil duros e por isso não posso ceder aos seus desejos.

—Meu Deus! disse a joven juntando as mãos, e derramando abundantes lagrimas. Julgava que este homem me amava, mas enganei-me.{116}

Ernesto fez-se pallido até ficar livido, os olhos brilharam-lhe de um modo terrivel, pegou bruscamente em uma mão de Amparo, e disse:

—Senhora, o meu amor é tão grande, que não encontraria palavras com que podesse narrar-lh'o.

E pondo uma mão sobre o peito, continuou:

—Aqui, desde o momento em que perdi a esperança de realisar os meus sonhos, sinto como que uma tempestade infernal que rebentará em breve, despedaçando-me o peito. Oh! Como é insensato todo o homem que não sabe ser superior ás paixões que o dominam. Eu nunca amara senão minha mãe e a gloria. A que me deu o ser deixou de existir. Fiquei orphão, e a gloria desde esse dia foi minha mãe, minha amada, minha vida; mas um dia o destino ou a fatalidade collocou-a ante mim, e amei-a com toda a minha alma. Este amor então foi correspondido, sellado com um beijo que ainda me queima nos labios, que ainda abraza a alma, e depois...

Ernesto soltou uma gargalhada hysterica e ajuntou: