—Mas para que recordar-lhe o que a senhora esqueceu? Que deseja a senhora? Fiz-lhe o sacrificio da minha felicidade, talvez o da minha vida, farei tambem o da minha honra, estou disposto a tudo. O quadro é seu, minha senhora; escreverei a noticia, e entregarei ao senhor conde de Loreto o documento com que poderá retiral-o quando a Exposição terminar. Depois, se quizerem, podem queimal-o, pois era esse o fim a que o destinava.
Ernesto poz-se de pé, fazendo um esforço supremo, e como se as suas ultimas palavras tivesse esgotado as forças, dirigiu-se para a porta.
Amparo olhava-o absorta, commovida, sem coragem para detel-o. Viu-o partir, e notou que aquelle homem tremia como um ebrio.
Apenas sahira do gabinete, ouviu-se na antecamara um ruido como o que produz um corpo ao cahir desamparado. A condessa soltou um grito e D. Ventura sahiu da alcova.{117}
—É um rapaz que vale quanto pesa, disse o commerciante.
—Meu pae, corra, succedeu qualquer cousa a Ernesto.
D. Ventura foi por onde o pintor tinha sahido, e effectivamente encontrou-o estendido no chão.
Soltou um grito e pediu soccorro. Ernesto estava desmaiado com a cara e o peito manchados de sangue.
Quando Amparo chegou, julgou que Ernesto se suicidara; os creados levantaram-n'o e transportaram-n'o para a cama de D. Ventura, e quando chegou o medico, soube-se a verdade: Ernesto tivera um grande vomito de sangue que o obrigara a perder os sentidos.
Uma hora depois, quando voltou a si e abriu os olhos, o conde de Loreto, Amparo, Ventura e o medico estavam em volta da cama.