O pintor estava extremamente pallido, mas com essa palidez mate, melancholica, dos doentes de peito, e dirigindo um olhar vago e fatigado em volta de si, disse com voz debil:

—Quanto me penalisa, senhores, este contratempo. Senti-me mal repentinamente, como se se tivesse rompido qualquer cousa dentro do peito; quiz evitar á senhora condessa um desgosto, e retirei-me á pressa, mas ao chegar á antecamara, perdi os sentidos. Espero que me desculparão o susto que lhes causei.

—O mais importante, meu amigo, disse o conde, é a sua saude, e desejo que me faça o favor de permanecer em minha casa até que se encontre completamente restabelecido.

Havia tanta doçura, tanto interesse n'aquella voz, que Ernesto, fixando o conde com um olhar replecto de agradecimento, respondeu:

—Um doente nas minhas condições, senhor conde, é demasiadamente importuno. Agradeço-lhe reconhecidissimo o seu offerecimento, mas não devo acceital-o e peço-lhes que tão depressa o medico diga{118} que me encontro em estado de ir para minha casa, me concedam licença.

—Não será hoje nem ámanhã, respondeu o medico, e por conseguinte creio que não nos devemos occupar d'outra cousa que não seja fortalecer o nosso doente.

—Não se fala mais n'isso, disse D. Ventura, Ernesto é mais bem tratado aqui do que em sua casa. Eu, em nome da nossa amizade, prohibo-lhe que se levante da cama. Quando estiver restabelecido, quando estiver forte, fará então o que lhe aprouver. Hoje mando eu.

Ernesto fez um movimento d'olhos indicando que se resignava. Sentia-se tão fraco, que lhe seria impossivel ter-se de pé.

Ficou, pois, resolvido que ficaria no quarto de D. Ventura.

Quando o medico sahiu, Amparo deteve-o para lhe perguntar pelo doente.