—Comtudo o conde não te comprou o quadro.
—Mas se eu lh'o offereço.
—Isso não póde ser. Tu és pobre e nos não consentimos...
—Mau! O quadro, dado o caso de ser premiado pelo governo, poderá render-me quando muito cinco ou seis mil duros. Com essa quantia é rico um homem como eu.
—Mas nós podemos dar-te pelo quadro vinte mil duros.
—Isso seria roubar o dinheiro, e não creio que o senhor me faça a offensa de me julgar interesseiro.
—Demais sei eu que todos os homens de talento desprezam o dinheiro.
—Pois então consinta que a minha pobre Esther salvando os filhos de Israel fique em paga da carinhosa hospitalidade que me concederam, e não se fala mais no assumpto. Mas não percamos tempo; é preciso que ámanhã saia em alguns jornaes o meu communicado.
D. Ventura não poude convencer Ernesto a que acceitasse qualquer quantia pelo quadro.
—Para todos, disse o pintor, o quadro foi comprado pelo conde de Loreto pela importancia que lhe aprouver dizer, e eu não o desmentirei; para nós, o quadro será uma offerta que eu faço ao esposo de D. Amparo de Aguillar.