—Que leia isto, que mande tirar copias e que as remetta aos jornaes que quizer.
E Ernesto entregou uns linguados de papel em que pouco antes escrevera. D. Ventura leu para si. Quando acabou a leitura lançou-se nos braços de Ernesto, exclamando com voz commovida:
—Obrigado, Ernesto, obrigado. Estas linhas trarão a paz a um lar e o socego a um pae; és o homem mais generoso do mundo.
D. Ventura tinha os olhos cheios de lagrimas.
Ernesto estava impressionado ante a profunda satisfação do velho.
—Demais, disse o pintor, fingindo grande naturalidade, essa declaração que destruirá por completo a maledicencia, vale bem pouco, e não vejo motivo para que o senhor m'o agradeca. Em poucos dias estarei completamente restabelecido, e sahirei de Madrid, e nem o senhor conde, nem a senhora condessa me tornarão a vêr. Tenho um plano de vida que me será proveitoso. Emquanto ás nossas excursões artisticas por Florença, e Roma só me resta julgál-as um encantador sonho, filho d'uma imaginação viva e impressionavel, e como os sonhos se esquecem procurarei esquecêl-as tambem.
—Oh! Tu não dizes o que sentes, Ernesto, soffres e tentas occultal-o.
—E quem não soffre n'este valle de lagrimas? Existe porventura homem feliz n'este mundo? Creio que não. A vida não é outra cousa senão um castigo que Deus impõe á humanidade pelo peccado original; resignemo-nos, pois e paguemos esse tributo ao Creador.
—Mas isso não me tranquillizou por completo. Dizes{121} no teu artigo que o quadro é propriedade do conde de Loreto, que o comprou em Roma, com a condição de que Esther fosse o retrato de sua futura mulher, e isso não é verdade.
—Meu amigo, ás vezes a mentira, que tem alguma cousa de santa, é indispensavel.