Assim se passaram cinco dias. Ernesto falava pouco, não só porque o medico lh'o prohibira, como tambem porque pensava muito em todos estes acontecimentos.

O seu amor por Amparo era immenso. O conde indubitavelmente conhecia esse amor, e comtudo, dedicado e obsequioso, consentia que sua mulher passasse horas inteiras sentada a cabeceira da sua cama.

Em vão Ernesto perguntava a si mesmo porque era que aquella familia se mostrava tão attenciosa, tão obsequiadora para com elle, e o seu coração generoso repellia algum pensamento pouco favoravel para ella. O conde parecia-lhe um homem digno e honrado, Amparo uma irmã, D. Ventura um pae, e até o medico era para elle um amigo.

Desde que recuperára os sentidos, durante os dias em que se achava n'aquella casa, ninguem lhe tornára a falar do quadro. Ernesto sentindo-se mais alliviado, aproveitou um momento em que estava só, pois desejava demonstrar áquella familia o seu reconhecimento.

Levantou-se da cama, chegou com algum custo a uma mesa onde estavam os apetrechos de escripta, e poz-se a redigir um artigo.

Passada uma hora tinha acabado.

Então, voltou para a cama, tocou a campainha e disse ao creado que se apresentou:{120}

—Faça favor de dizer ao senhor D. Ventura que desejo falar-lhe.

O creado obedeceu e poucos momentos depois entrava o commerciante, sorrindo como sempre.

—Bravo, bravo, disse elle. Já te vejo esse parecer mais animado e gosto d'isso. Mas, saibamos o que quer o meu doente.