Amparo inclinou tristemente a cabeça sobre o peito. As palavras eram uma terrivel accusação, um castigo ao seu coquettismo.

—Porque me não odeia, senhor Ernesto? tartamudeou Amparo. Porque me não despreza?

—Senhora, a minha alma não póde nem odiar, nem desprezar, nem esquecer. As noites de Florença e de Roma imprimiram n'ella uma impressão demasiadamente profunda.

A condessa comprehendeu que a conversa ia seguindo um rumo perigoso.

—Pois bem, senhor Ernesto, disse, peço-lhe em nome da amizade que apague da memoria essas noites.

—Impossivel; é uma recordação que faz parte da minha vida; e por assim dizer a minha segunda natureza. Quando der o ultimo suspiro, quando deixar de existir, então, sim, então é que se extinguirá do meu peito.

—Mas sente-se assim tão doente? perguntou Amparo, que, aturdida ante as sentidas recriminações do pintor, não sabia que dizer.

—Quem sabe se serei um d'esses ridiculos apprehensivos que á força de pensarem na morte sempre d'ella vão escapando!

E sorrindo com um ar triste, continuou:

—O ar saudavel das montanhas talvez me restabeleca.