«Senhor conde

«A opportunidade produz sempre bom resultado no animo impressionavel das creaturas. Dispunha-me a sahir de casa com tenção de comprar alguns apetrechos de caça, quando vi entrar o seu creado com o que me enviou.

«Sem ter nada de Pedro Paulo Rubens, não agradecerei menos os presentes que me fez, do que agradeceu o pintor flammengo os donativos de Carlos I.

«Obrigado, pois, senhor conde, pela sua delicada offerta. Ámanhã parto e talvez nos não tornemos a vêr, apezar dos bons desejos que têem pelo meu restabelecimento. Ha doenças que cada hora qua passa nos leva uma parte da existencia, são as incuraveis; e a minha é d'essas que se chamam de morte.

«Não é o medo nem a apprehensão que me fazem dizer isto; sei bem qual é o mal que me consome, e só terei illusões, quando tiver sido tocado pelos dedos gelados da morte. Deus quer que os doentes do peito sonhem com a vida nos ultimos momentos.

«Adeus, senhor conde. Em breve lhe enviarei por pessoa da minha confiança o primeiro quadro que pintar, e assim o irei fazendo successivamente, mas não receio, que a collecção seja muito grande.

«Cumprimentos á senhora condessa e ao senhor D. Ventura, e não esqueça este desterrado voluntariamente, que prefere a solidão do campo ao ruido e bulicio dos homens.

«Sempre seu amigo

Ernesto Alvarez.»{136}

No dia seguinte, Ernesto, depois de fazer varias compras, entre as quaes se contava um vestido para a mulher de Mauricio, despediu-se dos amigos e entrou n'uma carruagem de primeira para Toledo.