—Que traz ahi, sr. Ernesto? É algum quadro? perguntou Amparo vendo o rolo que o pintor tinha na mão.

—Como estava distrahido! respondeu Ernesto. Hontem de tarde fiz um trabalho. É um atrevimento que espero me desculpem.

O pintor desenrolou a tela e apresentou-a, sorrindo-se.

A joven não poude conter um grito de assombro, e D. Ventura pronunciou uma interjeição.

—Sou eu!

—É a minha filha!

—É um retrato d'esta senhora, e venho offerecel-o como uma recordação da visita que tiveram a bondade de me fazer.{13}

—São levados da breca estes pintores, exclamou D. Ventura. Como se póde reter na memoria de uma fórma tão completa as feições de uma pessoa e passal-as para a tela com tanta verdade?! Porque és tu! Sim, tão parecida como duas gottas d'agua; muito mais parecida do que uma photographia.

Ernesto sorriu-se das admirações de D. Ventura. Amparo parecia agradecer-lhe com um olhar cheio de ternura aquella recordação tão delicada.

—Pois é a cousa mais facil do mundo, disse o pintor olhando para Amparo, comprometia-me a fazer outro d'aqui a tres annos sem me esquecer do menor detalhe do vestido e do penteado que tem n'esta occasião.