—Entre, disse D. Ventura.

Entrou. Amparo estava ainda sentada ao piano. Por cima d'este estava um grande espelho e no limpido{12} crystal Ernesto viu retratado o encantador rosto de Amparo, que sorria, enviando-lhe um olhar que o perturbou por um momento.

—Bravo, é um homem de palavra, disse D. Ventura. Ahi está uma qualidade que não é muito vulgar nos artistas.

—Então não me esperavam?

—Eu esperava, mas o meu pae, não, disse Amparo, fazendo girar o banco do piano, até ficar voltada para o pintor.

Amparo tinha um vestido tão simples como elegante. O seu cabello negro e frizado, estava atado com uma fita azul que fazia realçar a brancura do seu rosto e o tom rosado das faces.

O pintor achou-a muito mais formosa do que no dia anterior.

De bôa-vontade ficaria contemplando o encantador modelo que tinha ante si; mas isso álêm de inconveniente seria ridiculo.

A donzella, por seu lado, olhava o pintor com o mais seductor dos seus olhares e enviava-lhe o mais bello dos seus sorrisos.

Comprehendera o que se passava na alma de Ernesto. Só D. Ventura não via nada. É bem certo o dictado que diz que os paes são todos myopes.