—E tinha o vicio que tem agora?{144}

—Não, Petra, antigamente não bebia bebidas brancas, bebia sómente vinho, e isso mesmo pouco. Hoje, como sabes, quasi todas as noites...

Mauricio deteve-se, dirigiu um olhar para a porta, e depois continuou:

—Hontem reprehendi-o amigavelmente, dizendo-lhe que não lhe podia fazer bem beber tanto rhum, e elle, pondo-me uma mão no hombro, e sorrindo-se com expressão bondosa, respondeu-me:

—Caro Mauricio, ha dôres tão terriveis, desgostos tão profundos, que para os esquecer algumas horas é preciso embriagarmo-nos. A minha doença não tem cura; deixa-me, pois, beber, esquecer, dormir.

—Quando eu disse que havia aqui algum mysterio!... disse Petra.

—Tambem me parece que tens razão; aqui deve haver mysterio.

—Sabes o que calculo? Que tudo isto deve ser obra de mulher.

—E porque calculas que seja obra de saias?

—Vaes vêr. Outro dia entrei no quarto para o tratar, como de costume, e encontrei debaixo da almofada uma fita de seda, e um boccado de tela, onde estava pintada uma cabeça de mulher extremamente formosa. Não tive tempo para mais do que olhar rapidamente para estes objectos e tornal-os a pôr no mesmo sitio em que os encontrei quando o vi entrar, precipitadamente, dirigir-se para a cama, pegar n'elles e sahir do quarto do mesmo modo, olhando-me de um modo estranho, como se quizesse adivinhar se eu tinha visto. Fiz-me desentendida, e continuei arrumando o quarto.