—Ficam ahi. Venho logo buscal-as com o meu cavallo.

—Então dá-me um gole de rhum, e a caminho. Passei um bom boccado.

Ernesto bebeu e deu o frasco a Mauricio. Depois dirigiram-se para casa onde o pintor chegou bastante fatigado.

[CAPITULO XXIV]

Uma carta e um annel

Ernesto deixou-se cahir na cama, e como sempre, o seu pensamento occupou-se de Amparo.

—Ámanhã, disse, falando comsigo, ouvirá pronunciar o meu nome, e no fundo da sua alma renascerá a recordação das noites de Florença. Os seus labios, vermelhos como bagos de romã, recordar-se-hão tambem d'esse beijo fatal que me fez o mais desgraçado dos homens, e pela mente do conde de Loreto cruzará debil, mas ameaçador, o phantasma de uma duvida, a sombra de uma suspeita.

Ernesto tinha sempre na mesa de cabeceira uma garrafa de rhum; extendeu o braço, pegou na garrafa e bebeu um gole.

—Ha quasi um mez sem a vêr, continuou, e comtudo a ausencia não apagou o fogo devorador d'esta paixão que me abraza. O conde de Loreto tinha mais direito do que eu para ser amado, mas indubitavelmente não a ama tanto. E que importa isso ás mulheres? O conde é rico, nobre, e a vaidade é o dominio tentador do bello sexo. Se o amor é o fogo d'alma que transmitte calôr ás ideias dos homens de genio, devo fazer grandes quadros.

E Ernesto soltou uma gargalhada, pegou novamente{152} na garrafa, e quasi a despejou de um trago.