D. Ventura estava encantado. Ernesto sabia tudo; era, como vulgarmente se diz, um livro aberto.
Não encontraram uma pedra, uma columna, um sepulchro do qual o pintor não soubesse a historia.
Amparo escutava-o com prazer. Encostando-se-lhe familiarmente ao braço fazia-lhe perguntas, principalmente quando encontrava alguma inscripção latina.
O dia passou-se agradavelmente para os tres; as horas foram curtas, e os laços de amisade estreitaram-se duplamente com aquelle agradavel passeio.
Ás seis horas regressaram ao hotel. O jantar já os esperava. Depois metteram-se n'um trem que os conduziu ao Colyseu.
A noite estava serena; a lua no seu auge, e a sua clara luz banhava as colossaes ruinas onde em outros tempos oitenta e sete mil espectadores iam gozar o barbaro espectaculo das luctas humanas.
Então, o povo romano pedia pão e circo, e os imperadores tinham o cuidado de satisfazer os desejos da terrivel fera que dormia, lambendo-lhe os pés.
Ernesto levava os dois amigos a um e outro lado, esplicando-lhe com o mesmo conhecimento que poderia fazer-lhe um cicerone do tempo do imperador Claudio, descrevendo-lhe ao mesmo tempo aquellas terriveis luctas, dos adestrados gladiadores, cujo sangue regou com abundancia a arena do circo.
—Assistiram mulheres a esse barbaro espectaculo? perguntou Amparo.
—Ao principio era-lhes prohibida a entrada, respondeu Ernesto, mas depois foi auctorisada, reservando-lhes Octavio Augusto as bancadas mais altas do amphitheatro. Precisamente aqui onde estamos era a tribuna do imperador, e alli a das vestaes, cujo docel era egual ao do imperador. A este sitio chamava-se{16} Spoliarium, para onde conduziam os cadaveres dos gladiadores ou os que estavam mortalmente feridos, puxando-os com um gancho de ferro. Esta obra colossal foi construida no curto espaço de quatro annos. Tinha setenta portas, sem contar com as entradas reservadas para o imperador e a sua côrte. As festas da inauguração no tempo de Flavio Sabino Tito duraram cem dias consecutivos, e n'ella perderam a vida dois mil gladiadores.